Dezoito dias depois de dizer que tinha uma “parceria enorme” com a família do ex-vereador Milton Leite (União), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou, nesta quinta-feira (17/9), que sua relação com o político da zona sul de São Paulo era apenas “institucional”. A declaração acontece no dia em que a Polícia Civil cumpre um mandado de prisão contra Milton por suspeita de ligação dele com o crime organizado .
“Veja, a relação que nós tivemos sempre foi uma relação institucional. Foi uma relação para discutir a questão dos mananciais, para discutir o tratamento, o saneamento básico na Billings, na Guarapiranga, […], a chegada do trem em Parelheiros. Sempre foi um relacionamento institucional, um relacionamento propositivo, voltado a projetos”, disse Tarcísio, em uma agenda em Itapetininga, no interior paulista.
No fim de agosto, no entanto, Tarcísio esteve ao lado de Milton para o lançamento da candidatura a deputado estadual e federal dos filhos dele, Alexandre Leite (União) e Milton Leite Júnior (União), respectivamente. 8 imagens Fechar modal. 1 de 8
Tarcísio participa do lançamento das candidaturas de Alexandre Leite a deputado estadual e Milton Leite Filho a deputado federal Caiuá Maia / Divulgação Campanha Tarcísio de Freitas 2 de 8
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Tarcísio participa do lançamento das candidaturas de Alexandre Leite a deputado estadual e Milton Leite Filho a deputado federal Caiuá Maia / Divulgação Campanha Tarcísio de Freitas
Na ocasião, o candidato à reeleição de São Paulo parabenizou Milton e os filhos pela condução de políticas públicas na zona sul da capital paulista e ressaltou a ligação com a família.
“Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles, uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”, disse o candidato.
Milton Leite teve um papel crucial no mandato de Tarcísio ao articular na Câmara Municipal de São Paulo as mudanças necessárias para viabilizar a venda da Sabesp .
Apesar de a privatização da empresa precisar passar pela aprovação da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), sem as mudanças na legislação da capital paulista, que tinha restrições quanto ao contrato com a Sabesp, a venda da empresa não poderia seguir adiante.
Então presidente da Câmara Municipal, Milton atuou como fiador de Tarcísio e conseguiu os votos necessários entre os vereadores para aprovar a alteração na lei solicitada pelo governador. Entenda a operação contra o PCC no transporte
Ex-vereador e presidente do União Brasil em São Paulo, Milton Leite é alvo de um mandado de prisão no âmbito da Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17/9) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo ( MPSP ).
A Justiça decretou a prisão do político e de outras 15 pessoas, entre elas, advogados, o candidato a deputado estadual Danilo Morgado (PL)) e ex-presidente da SPTrans, Levi de Olivera.
Segundo a investigação, o suposto esquema envolvia empresas, advogados, integrantes do crime organizado e agentes públicos para alcançar os objetivos da facção.
A operação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada deDecúrio . Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes do PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.
A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior”. Essa infiltração, segundo as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso deempresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais .
Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo teria promovidoajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos .
As facilidades no setor, segundo a investigação, seriam obtidas em troca do financiamento de campanhas eleitorais de candidatos e cooptação de agentes públicos. Candidato a deputado estadual, Danilo Morgado (PL) foi preso durante a operação desta quinta-feira. Morgado é investigado por envolvimento com o núcleo político do PCC. Segundo a polícia, a campanha dele ao pleito municipal, em 2024, foi financiada pela facção criminosa. Leia também Ramiro Brites André do Prado exaltou “o exemplo de Milton Leite”, suspeito de elo com PCC São Paulo Há 18 dias Tarcísio agradeceu Milton Leite, alvo do MPSP: “Parceria enorme” Vinicius Passarelli Milton Leite segue como administrador em grupo de zap de vereadores de SP São Paulo Milton Leite nega estar foragido e diz que vai se apresentar em 24 horas
Os investigadores ainda citam encontros periódicos com ex-gestores do sistema público, como o servidor da SPTrans Levi Oliveira, e políticos que atuariam como responsáveis ou proprietários por empresas do setor, como Milton Leite, apontado como dono da Transwolf.
O dinheiro do crime seria injetado no setor de transporte por meio da negociação de veículos e compra/venda de frotas inteiras de ônibus, com pagamentos de comissão aos laranjas, além da transferência de valores entre as contas das empresas e dos investigados.
A investigação também aponta a existência de um núcleo chamado“Sintonia dos Gravatas”, composto por advogados e operadores ligados à facção, que teriam o papel de intermediar negociações contratuais, atuar em licitações, gerenciar repasses de comissões e disponibilizar contas bancárias e escritórios para reuniões de integrantes do esquema.
“Em síntese, os elementos descritos pela Autoridade Policial procuram demonstrar que a atuação investigada extrapolaria o tráfico de drogas, abrangendo a utilização de empresas de transporte, pessoas interpostas, contratos públicos, articulações políticas e estruturas da área da saúde, além de evidenciar suposta divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos, com atuação coordenada em benefício do PCC”, diz um trecho do documento. Entenda papel dos investigados
Segundo as autoridades,Milton Leite foi citado nominalmente nas investigações como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC. Também há declarações de policiais militares que apontam o político como dono da empresa de ônibus Transwolf. JáLevi dos Santos Oliveira , da SPTrans , teria se reunido com integrantes do PCC relacionados às empresas de transportes para tratar dos interesses da facção, especialmente após a Operação Fim da Linha. Quem são os alvos de operação contra o PCC no transporte público André Cassali Carla de Paula Muller Cicero Jose dos Santos Filho Claudionor Aparecido Sabino Tomaz Danilo Marco Morgado Silva Edivania Arruda Botelho Alves Edson Antonio de Souza Eduardo Medeiros José Daniel Satilite José Ronaldo Alves de Sales Julio Salvador Filho Levi dos Santos Oliveira Milton Leite da Silva Milton Mello Milreu Paulo Sirqueira Korek Farias Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira O que dizem os envolvidos OMetrópoles tenta contato com os investigados. Por telefone, Milton Leite negou envolvimento no esquema e afirmou que se apresentará às autoridades dentro de 24 horas. A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que foi surpreendida com a notícia da prisão e que aguarda acesso aos autos para adotar as medidas cabíveis. Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada. A prefeitura informou, ainda, que abriu processo pela Controladoria-Geral do Município contra as empresas e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório. Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.

