Influenciador dos Houthis usou IA do Brasil para obter dados militares

Influenciador dos Houthis usou IA do Brasil para obter dados militares

Os caminhos de Wissam Maarouf e da empresaeesier se cruzaram em setembro do último ano quando o homem, que tem ligações com o grupo Houthis do Iêmen , usou uma ferramenta de inteligência artificial (IA) disponibilizada pela empresa do Brasil para buscar informações militares. O principal foco dele eram acontecimentos na região do Mar Vermelho, onde a organização iemenita realizava ataques naquela altura.

AoMetrópoles , a eesier revelou algumas das pesquisas realizadas pelo iemenita dentro da ferramenta de IA, antes de ser bloqueado. Entre elas, monitoramento de incidentes, localização e rotas de embarcações, relatórios detalhados sobre ataques contra navios, solicitações de análises produzidas por uma empresa britânica especializada em segurança marítima. Quem são os Houthis? Criado na década de 1990, os Houthis são um movimento político-religioso composto majoritariamente por seguidores do zaidismo, uma das três vertentes do islamismo xiita. O grupo controla partes do Iêmen desde 2014, após iniciar uma ofensiva contra o então governo do país, dando início a guerra civil que dura 14 anos. Em 2015, a Arábia Saudita criou uma coalizão militar para apoiar o governo iemenita reconhecido internacionalmente. A partir dai, posições dos Houthis começaram a ser bombardeadas no Iêmen. A aliança militar saudita e os Houthis travaram combates até 2022, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) mediou um cessar-fogo no Iêmen. Os Houthis recebem apoio do Irã, e defendem a causa da Palestina. Por isso, a organização iniciou ataques contra navios ligados a Israel no Mar Vermelho depois do início da guerra na Faixa de Gaza. Eles também passaram a lançar drones e mísseis em direção ao território israelense. Os Estados Unidos e o Reino Unido chegaram a atacar posições dos Houthis no Iêmen entre 2024 e 2025 em resposta às ações do grupo na região. No segundo semestre de 2026, a trégua entre os Houthis e a Arábia Saudita foi rompida, e os dois lados retomaram as hostilidades. Na mesma época a organização expandiu seu controle no norte Iêmen, e agora domina praticamente todo acesso do país ao Mar Vermelho.

Focada em conectar empresas a novos clientes, a eesier fornece um assistente de IA no WhatsApp para tarefas que vão desde organização de agendas, até a abordagem de possíveis novos consumidores e agendamento de reuniões. Na época em que tudo aconteceu, a ferramenta também permitia que buscas na internet fossem realizadas, sem que fosse preciso sair do aplicativo de mensagens.

Wissam Maarouf foi bloqueado da plataformaapós a empresa detectar um volume de uso muito acima do habitual, com padrões de pesquisa considerados suspeitos. Leia também Mundo França decide enviar tropas para ajudar a Arábia Saudita contra os Houthis Mundo Houthis e Arábia Saudita trocam ataques e escalam conflito no Iêmen Mundo Almirante dos EUA visita príncipe da Arábia Saudita após avanço dos Houthis Mundo “Otan islâmica” segue inativa apesar de ações dos Houthis na Arábia Saudita

A principal hipótese é de que o iemenita tenha chegado ao assistente de maneira orgânica, após a eesier divulgar atualizações do seu assistente de IA nas redes sociais.

“Uma coisa que sempre fazemos é incorporar os novos modelos de inteligência artificial à ferramenta conforme são lançados. Então, na época, divulgamos uma dessas atualizações nas redes sociais convidando as pessoas a conhecer um dos modelos novos por meio do nosso assistente. A hipótese é de que ele tenha encontrado o eesier dessa forma, possivelmente no Twitter, embora não tenhamos confirmação”, disse a empresa em nota encaminhada à reportagem.

Depois de bloquear o acesso de Wissam Maarouf, os únicos rastros que sobraram do homem foram o seu número de celular, com código internacional do Iêmen , e uma foto usada no perfil do WhatsApp.

Na fotografia, o homem aparece vestindo o traje típico iemenita composto de uma túnica conhecida como thobe , paletó e um xale de lã. Na cintura, o “influenciador” carregava uma Jambiya, tradicional adaga do Iêmen, junto de um rifle russo Kalashnikov, popularmente conhecido como AK-47, apoiado nas pernas.

O influenciador digital de guerra

Casado e morador da capital do Iêmen controlada pelos Houthis, Sanaa, Wissam Maroouf usa a mesma foto do WhatsApp no Facebook e X (antigo Twitter) — a mesma que serviu para identificá-lo nas redes sociais por meio de buscas em fontes abertas realizadas peloMetrópoles.

O iemenita se apresenta como figura pública e influenciador nas duas plataformas, onde acumula mais de 6 mil seguidores que acompanham suas publicações focadas, principalmente, em temas militares.

Além de comunicados oficial do grupo, Wissam também utiliza as redes sociais para informar sobre ataques realizados pelos Houthis na região — principalmente contra embarcações no Mar Vermelho.

Quando encontrou o assistente de IA da eesier em 2025, as operações marítimas dos Houthis eram um dos focos de suas pesquisas. Entre as buscas, ele solicitou que a ferramenta informasse sobre duas embarcações que operam sob a bandeira da Libéria. Ambas foram foram atacadas no Mar Vermelho nos dias 1 º e 2 de setembro do último ano, como parte da campanha dos Houthis em resposta a guerra na Faixa de Gaza.

Nos mesmos dias, Wissam compartilhou para seus seguidores no Facebook os resultados das operações contra os naviosMSC Aby e Scarlet Ray. 4 imagens Fechar modal. 1 de 4

Perfil no Facebook de Wissam Maroouf 2 de 4

Na rede social X, ele se descreve como "influenciador digital" 3 de 4

Publicação sobre o ataque dos Houthis contra o navio Scarlet Ray 4 de 4

Informações compartilhadas por Wissam sobre a operação contra o navio MSC Aby

Não está claro se o homem ocupa um cargo de liderança dentro dos Houthis, ou que tenha participado de combates ao lado do grupo. Pelas redes sociais, no entanto, é possível notar a forte ligação que Wissam mantém como a organização.

Em 18 de setembro, o influenciador comemorou as operações dos Houthis conta a Arábia Saudita. “Riade [capital saudita] sob bombardeio”, disse em uma publicação junto de emojis com bandeiras do Iêmen e foguetes.

Já nesta semana, o iemenita usou o Facebook para falar sobre os recentes avanços dos Houthis contra forças governamentais do Iêmen na província de Taiz.O local é considerado a principal porta de entrada ao Estreito de Bab el-Mandeb, e vital para o acesso o trânsito entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden.

“A estrada Taiz-Aden está sob o controle dos homens de Deu [Houthis]. Com isso, foi cortada a última rota de abastecimento do inimigo”, escreveu.

Leia a matéria completa em metropoles.com

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