Sete anos separam dois discursos de Delcy Rodríguez na ONU e realçam discrepâncias na retórica belicosa que marcava as relações com os Estados Unidos. Em 2019, a então vice-presidente da Venezuela exaltou Nicolás Maduro, a quem representava, e execrou Donald Trump, por reconhecer Juan Guaidó como presidente legítimo do país.
"Venho em nome da única Venezuela, a Venezuela digna e corajosa, que não se curva a nenhum poder imperial”, declarou na época. De volta à Assembleia Geral das Nações Unidas, agora como presidente interina, Rodríguez deixou transparecer a subserviência desmedida ao presidente americano, a quem agradeceu pela disposição de "retomar o caminho das relações diplomáticas e da cooperação com a Venezuela".
Sequer mencionou o nome do ex-chefe, capturado em janeiro por forças especiais americanas e transferido, como réu, para uma prisão a 15 quilômetros do palco da ONU. “A Venezuela deve definitivamente abandonar o caminho que permitiu que o extremismo e a intolerância prevalecessem sobre a convivência democrática e pacífica”, proferiu.
As palavras de Rodríguez nas duas ocasiões ressaltam a dissonância no seu papel como uma das principais representantes do chavismo. A retórica anti-imperialista deu lugar à linguagem da cooperação com Washington. A lealdade mudou de figura e o antigo inimigo passou a ser apresentado como parceiro.
Os gestos do primeiro encontro com o presidente americano refletiram esta guinada: Trump levantou o dedo polegar, Delcy fez o V, de quem a salvou a própria pele, distanciando-se de Maduro e marcando posição a serviço do governo dos EUA. A ruptura da presidente interina com a retórica bolivariana pontuou o discurso de 18 minutos no púlpito da ONU.
Ela elogiou o acordo petrolífero firmado com os EUA, que dará ao país o direito de explorar um quinto das reservas de petróleo bruto da Venezuela. Citou expressões pouco usuais ao repertório chavista, como “transformação democrática”, “república pluralista” e “democracia plena”, para descrever os rumos de seu país.
Por fim, Delcy Rodríguez anunciou a realização de eleições, sem especificar prazo, mas dando a impressão de ter sido pressionada a incluir o tópico em seu discurso. Enquanto a presidente interina da Venezuela estava em Nova York, a líder opositora, María Corina Machado, fazia três tentativas malsucedidas de retornar ao país pelo Panamá.
Outrora incensada pelo governo americano, a Prêmio Nobel da Paz vem sendo escanteada por Trump para que não atrapalhe seus planos na transição política e econômica do país. Em comum, Rodríguez e Machado vêm digerindo doses de humilhação pública administradas por Trump, até agora o maior vencedor da nova ordem de comando do país caribenho.
Do púlpito das Nações Unidas ele gabou-se da vitória com a sentença: “Aos vencedores, os despojos.” A aproximação com Delcy Rodríguez, contudo, preocupa republicanos e desagrada à comunidade latina nos EUA. Pode custar caro ao presidente em novembro.

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