Tarifaço de Trump já derruba vendas de empresas brasileiras; veja desafios

Tarifaço de Trump já derruba vendas de empresas brasileiras; veja desafios

As novas tarifas dos Estados Unidos reduziram em até 60% as exportações de empresas brasileiras, zerando as vendas de algumas companhias em 2026. Autoridades brasileiras e americanas retomaram as negociações nesta quarta-feira (30). A reunião com o representante Jamieson Greer não trouxe definições sobre as relações comerciais.

Cerca de 72% das 2. 400 empresas que exportavam aos Estados Unidos já atuam em novos destinos. A União Europeia surge como alternativa para a indústria. O governo federal ampliou o apoio financeiro às exportações. Foram destinados R$ 2, 2 bilhões ao Proex Financiamento e R$ 1, 28 bilhão ao Proex Equalização em 2026.

Empresas brasileiras já sentem no caixa o impacto do tarifaço de Donald Trump. Em alguns casos, as vendas para os Estados Unidos caíram 60%. Em outros, foram zeradas. “O mercado americano representava 40% do faturamento em 2025 e este ano [2026] representa zero”, afirma João Baroni, diretor-geral da Engemasa, do setor de manufatura.

🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g 1 O executivo acrescenta que, além do impacto das tarifas, os clientes têm reclamado da falta de previsibilidade na compra de equipamentos. "O que tem nos afetado muito, pois foi um mercado que levou décadas para construirmos e agora vemos ele se despedaçar em questão de meses", diz.

José Neto, diretor da Utilinox, empresa que vende máquinas e equipamentos para uso industrial, afirma que alguns produtos registraram queda de 60% nas vendas para os EUA. No caso da empresa, o tarifaço começou no início do ano, com a alíquota de 50% sobre aço e alumínio, prevista na Seção 232.

Especialistas ouvidos pelo g 1 defendem, no longo prazo, o fortalecimento do mercado nacional e do setor industrial brasileiro. “Uma reorganização do comércio internacional pode abrir espaços antes ocupados por outros fornecedores e criar oportunidades para a indústria brasileira em determinados mercados”, diz Breno Grou, CEO da Sinter, indústria de higiene, beleza e cuidados pessoais.

Mas companhias atingidos pelas novas tarifas não podem escapar da tentativa de abrir novos mercados e redirecionar sua produção. Encontrar outros destinos não é rápido, e o desafio é ainda maior para pequenas e médias empresas, que têm menos caixa e menor presença internacional para reagir à mudança.

Por isso, empresários que ainda não conseguiram novos clientes demonstram pouca esperança de uma melhora nos próximos meses. Empresários também veem com alguma desconfiança a retomada das negociações entre os governos brasileiro e americano nesta quarta-feira.

Autoridades brasileiras e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, se encontram para discutir as relações comerciais. Mas o alerta já foi dado: a reunião marcou a retomada das conversas, e não trouxe definições. Por agora, buscar novos mercados Para o empresário João Dmitruk, presidente da Câmara Setorial de Máquinas, Equipamentos e Componentes do Setor de Defesa e Segurança (CSDS) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), o impacto inicial é maior entre empresas com menor capacidade de caixa e menor grau de internacionalização.

Mas há luz no fim do túnel. Segundo Dmitruk, diversificar as vendas para novos países pode ser um band-aid necessáiro. 🔎 Somente neste ano, o Brasil participou de 4 acordos/programas comerciais: Mercosul e União Europeia; Mercosul e EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça); Mercosul e Singapura; e uma cesta de acordos de bitributação e investimentos, selados pelo Congresso Nacional.

“A América Latina surge como uma alternativa importante para o redirecionamento de parte dessa produção, pela proximidade geográfica e pelas relações comerciais já existentes”, afirma. E a diversificação já está começando. De acordo com o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, cerca de 72% das 2, 4 mil companhias atendidas pela agência e que vendem para o mercado americano já passaram a atuar em pelo menos um destino adicional, como forma de reduzir riscos.

Mas não só os vizinhos latinos podem se tornar estratégia de longo prazo. Canadá, México, Alemanha, Turquia, África do Sul, Nigéria, Etiópia, Indonésia, Singapura, Índia e China estão entre os mercados apontados pela Apex como possíveis destinos para diversificar as exportações.

Seguindo esse caminho, empresários já exploram mercados do outro lado do mundo.“Estamos desenvolvendo novos fornecedores na Ásia e ativando algumas linhas de produção em nossa planta”, explica José Neto, da Utilinox.🔎Segundo a Balança Comercial Mensal, da Secretaria de Comércio Exterior, as exportações para a China, entre janeiro e agosto deste ano, foi uma das que mais cresceu (15%), totalizando US$ 77, 07 bilhões (R$ 393, 057 bilhões).

O crescimento empata somente com o da União Europeia (também com 15% de crescimento, mas a região totaliza somente US$ 37, 29 bilhões - R$ 190, 17 bilhões). O principal objetivo deve ser cuidar da indústria Mas nem tudo é simples como os números aparentam. Higor Borges, outro empresário afetado pela guerra comercial e presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Limpeza, afirma que a busca por novos mercados precisa vir acompanhada de medidas que preservem a capacidade de competição da indústria brasileira.

A diversificação dos mercados pode aliviar o impacto do tarifaço, mas, para especialistas, não resolve sozinha um problema mais antigo: a perda de competitividade da indústria brasileira. A indústria de transformação brasileira perdeu participação na economia nas últimas décadas.

Segundo a CNI, o setor representava 35, 9% do PIB em 1985 e passou a 13, 7% em 2025. No ranking de complexidade econômica, o Brasil caiu da 29 ª posição, em 1995, para a 78 ª, em 2024. “Reverter esse processo é investir na inovação da indústria, é investir no desenvolvimento da indústria.

Mais do que buscar um mercado de diversificação é fazer a nossa indústria ficar competitiva”, afirma Marcelo Vitali, diretor da How 2 Go. Uma indústria mais competitiva teria melhores condições de disputar mercados maiores, vender produtos de maior valor agregado e reduzir a dependência de um único destino.

Entenda a dificuldade de substituir os EUA Os Estados Unidos estão entre os mercados mais difíceis de substituir. O tamanho da economia, o nível de renda e a importância do país nas cadeias globais de produção fazem com que poucas alternativas tenham condições de absorver rapidamente o mesmo volume de produtos.

A dificuldade é ainda maior para os produtos industriais. Segundo Vitali, diretor da How 2 Go, muitos deles são vendidos diretamente de uma empresa para outra ou integram cadeias produtivas específicas. Isso torna mais espinhoso encontrar outro comprador. A empresa pode precisar adaptar o produto, cumprir exigências técnicas, criar relacionamento com novos compradores e conquistar a confiança no novo mercado.

“Não é tão simples assim: ‘Ah, não tem problema, se os Estados Unidos não quer, a gente vende agora para a Coreia’”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Onde há espaço para diversificar Se os Estados Unidos são difíceis de substituir, a estratégia não deve ser trocar uma dependência por outra.

O objetivo é ampliar o número de mercados e buscar destinos com capacidade de absorver produtos brasileiros. A União Europeia aparece como uma das alternativas para parte da indústria. O acordo comercial entre Mercosul e UE cria condições mais favoráveis para ampliar o comércio entre os dois blocos.

Segundo a CNI, a expectativa é que as tarifas de mais de 5 mil produtos sejam zeradas. Desse total, 93% dos novos itens beneficiados imediatamente são bens industriais. "Poucos serão os mercados que poderão absorver isso [os produtos taxados pelos EUA]. Eu acho que o mais óbvio é a União Europeia, até porque a gente acabou de assinar um acordo com eles”, diz Vitali.

Governo acelera busca por novos mercados Enquanto as empresas procuram alternativas, o governo também ampliou medidas de apoio. Além do plano Brasil Soberano, que está na terceira etapa e prevê R$ 22, 6 bilhões para ajudar companhias, a ApexBrasil anunciou R$ 210 milhões destinados a 35 setores, com estudos de mercado e ações para identificar os destinos mais adequados para cada cadeia produtiva.

🔎 O programa Brasil Soberano atende empresas que ainda enfrentam o tarifaço. Os três grupos que têm direito ao crédito são: exportadoras de bens; atuantes em setores industriais relevantes para o comércio exterior brasileio (com investimento tecnológico); e exportadoras de bens para países do Golfo Pérsico.

Ao todo, estarão disponíveis R$ 13, 5 bilhões em recursos do Tesouro Nacional e R$ 9, 1 bilhões do BNDES. Leonardo Neves, pesquisador da FGV, considera essas medidas importantes para dar fôlego às empresas no curto prazo, mas afirma que elas não substituem uma estratégia de longo prazo.

“Eles geram uma circunstância que as empresas têm um salva-vidas ali, que resolve a curto prazo, mas, de novo, não pode ser um plano, não pode ser uma bolsa-empresa para sempre”, afirma. Outra opção é o Seguro de Crédito à Exportação (SCE), que protege operações contra riscos de inadimplência do comprador estrangeiro e outros eventos que possam impedir a conclusão do negócio.

O mecanismo foi ampliado em 2026 para incluir novas modalidades de crédito, especialmente para micro, pequenas e médias empresas. Também existe o Programa de Financiamento às Exportações (Proex), que oferece crédito em condições competitivas para empresas brasileiras.

Para 2026, foram destinados R$ 2, 2 bilhões ao Proex Financiamento e R$ 1, 28 bilhão ao Proex Equalização. O governo também prorrogou por um ano os prazos do drawback para empresas afetadas pelas tarifas. O regime permite suspender, isentar ou restituir tributos sobre insumos usados na fabricação de produtos destinados à exportação, reduzindo o custo de produção.

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