Qual o perfil médio de quem mais recebe recursos de campanha dos partidos

Qual o perfil médio de quem mais recebe recursos de campanha dos partidos

Candidatos homens, brancos e que disputam a reeleição concentram os maiores repasses dos partidos para deputado federal nas eleições de 2026. Segundo levantamento exclusivo do g 1, das 52 candidaturas que receberam a maior quantia de cada partido, 61, 5% homens, 67, 3% são brancos e 55, 7% são parlamentares.

Dos R$ 2, 6 bilhões repassados pelos partidos para 5. 766 candidaturas, mais da metade ficou com apenas 786 candidatos. Homens brancos também são maioria nesse grupo. Integram ainda o grupo dos candidatos que receberam metade dos recursos partidários, esposas de políticos e pessoas famosas.

Homens, brancos e candidatos que tentam renovar seus mandatos predominam entre os favorecidos com os maiores repasses feitos pelos partidos para candidatos a deputado federal nas eleições de 2026. Os dados são de um levantamento do g 1 feito com base nas prestações de contas dos partidos disponíveis no sistema do Tribunal Superior Eleitoral.

Ao todo, 25 dos 30 partidos destinaram recursos a 5. 766 candidatos, mas apenas 52 candidaturas receberam o maior valor repassado por suas respectivas siglas — em alguns partidos, mais de um candidato aparece nessa posição, porque receberam valores iguais. Juntos, esses candidatos tiveram R$ 122, 6 milhões de um total de R$ 2, 6 bilhões destinados pelos diretórios partidários aos seus candidatos à Câmara dos Deputados.

Desse grupo, 61, 5% (32) são homens, 67, 3% (35) são brancos e 55, 7% (29) disputam a reeleição. 🔎 Os dados analisados foram coletados em 14 de setembro, o dia seguinte ao fim do prazo para a entrega da prestação parcial das contas de campanha. A planilha apresenta a movimentação financeira dos candidatos registrada até 13 de setembro.

Foram considerados apenas os valores cujo doador é um diretório partidário, seja ele nacional, estadual ou municipal. Um levantamento realizado pela ONG Transparência Brasil, com base nas receitas disponibilizadas pelo TSE até 15 de setembro - para as candidaturas válidas a deputado federal, estadual e distrital - confirma que o padrão identificado pelo g 1 se repete na distribuição dos recursos para todas as candidaturas proporcionais.

O estudo considera o repasse de recursos públicos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. Enquanto o percentual de candidatos brancos (50, 2%) e não brancos (49, 8%) é praticamente igual, a distribuição do dinheiro é bem diferente, segundo o levantamento. As candidaturas brancas receberam 60, 4% dos recursos públicos dos partidos.

Já a desigualdade de gênero começa no registro de candidatas. As mulheres representam 35, 6% das candidaturas analisadas pela Transparência Brasil. As brancas recebem 21, 3% dos recursos públicos, enquanto as mulheres negras (pretas e pardas), indígenas ou amarelas recebem 17, 3%.

Para Bianca Berti, analista sênior da ONG e uma das responsáveis pelo estudo, o perfil de quem é prioridade dos partidos na distribuição da verba de campanha explica tanto as desigualdades de representação quanto a baixa renovação do Legislativo. “Os partidos políticos têm papel fundamental na manutenção da desigualdade de representação de diversos setores da sociedade brasileira e na baixa renovação política, porque o financiamento das campanhas tem impacto direto e relevante no sucesso eleitoral.

Quanto mais recursos a campanha tem, maiores tendem a ser suas chances de sucesso", disse Berti. 25 candidatos receberam a partir de R$ 3 milhões O levantamento identificou 25 candidatos a deputado federal que receberam mais de R$ 3 milhões. O PL fez o maior repasse para uma candidatura.

A beneficiária foi Rosana Valle, uma deputada federal que se autodeclarou branca e recebeu R$ 3, 3 milhões. No Republicanos, o maior valor foi de R$ 3, 1 milhões, destinado para a deputada federal Daniela do Waguinho. Esposa de Waguinho, ex-prefeito de Belford Roxo (RJ), a candidata declara-se branca.

No PP, os candidatos à reeleição Pedro Aihara e Socorro Neri também receberam R$ 3, 1 milhões cada. Ele se autodeclarou amarelo e ela, branca. A mesma quantia foi destinada pelo Cidadania para Sandrinha Cavalcante. Casada com Glêdson Bezerra, prefeito de Juazeiro do Norte, no Ceará, ela concorre pela primeira vez e se declara branca.

Também cearense, a ex-prefeita de Nova Russas, Giordanna Mano, recebeu R$ 3 milhões do PRD para a sua campanha. Ela, que se declara branca, é casada com o deputado federal Júnior Mano (PSD) e concorre à Câmara pela primeira vez. Seu colega de partido Lucas Calil recebeu a mesma quantia.

Ele declara-se branco e atualmente é deputado estadual de Goiás. Ainda na casa dos R$ 3 milhões, os candidatos à reeleição Baleia Rossi (MDB) e Marcio Honaiser (Solidariedade) receberam R$ 3 milhões, cada, dos seus partidos. Os dois declaram-se brancos. Os únicos que se autodeclararam pardos e receberam recurso na faixa de R$ 3 milhões foram os candidatos à reeleição Silvye Alves (União Brasil) e Marcio Jerry (PCdoB).

Já o PDT destinou R$ 3 milhões para 14 candidatos: Roberto Requião, Paulo Cezar, Delegada Martha Rocha, Isabel Nogueira, Fátima Sousa, Marcos Tavares, Josenildo, Vitor Junior, Félix Mendonça Júnior, Dorinaldo Malafaia, Pompeo de Mattos, Professor Maneschy, Axel Grael e Afonso Motta.

Desses candidatos, 11 são homens, 9 declaram-se brancos e 6 concorrem à reeleição. 18 candidatos receberam a partir de R$ 2 milhões Outros 10 partidos destinaram valores a partir de R$ 2 milhões individualmente para candidatos à Câmara dos Deputados. No PT, a deputada federal Dilvanda Faro, que se declara preta, recebeu o maior repasse, de R$ 2, 9 milhões.

No PSD, a candidata à reeleição Leandre Dal Ponte, que se declara branca, recebeu R$ 2, 8 milhões. A mesma quantia foi destinada pela Rede para Heloisa Helena, que se autodeclarou parda. Na atual legislatura, ela é suplente e ocupou o cargo de deputada federal algumas vezes.

No PSDB, quem teve o maior repasse do partido foi o candidato à reeleição Paulo Abi-Ackel: R$ 2, 7 milhões. Ele declara-se branco. No Podemos, três candidatos receberam o maior valor da sigla, de R$ 2, 5 milhões cada: a deputada federal Renata Abreu, o deputado federal Douglas Viegas e a vereadora de São Paulo Ana Carolina Oliveira.

As duas mulheres declaram-se brancas e o homem, pardo. A mesma quantia foi repassada para o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB), que se declara branco, e para Duarte Junior (Avante), que se autodeclarou pardo e concorre à reeleição. Ainda na faixa dos R$ 2, 5 milhões, sete candidatos do PV receberam a mesma quantia cada: os deputados Professor Reginaldo Veras, Bacelar, Eduardo Bismarck, Bandeira de Mello, Clodoaldo Magalhães, Aliel Machado, e a vereadora de Natal (RN) Thabatta Pimenta.

Desses, cinco declaram-se brancos. Já o Novo destinou R$ 2, 3 milhões para o candidato à reeleição Gilson Marques Vieira, que se declara branco; e o PSOL repassou R$ 2, 2 milhões, a maior quantia do partido, para a deputada federal Érika Hilton, autodeclarada preta.

Nos demais partidos, os maiores repasses foram de R$ 350 mil no DC; R$ 163, 6 mil no PSTU; R$ 25 mil no Mobiliza; R$ 14, 2 mil no Missão; e R$ 9, 4 mil na UP. Dos nove candidatos desses partidos, cinco são homens e sete declaram-se brancos. Nenhum concorre à reeleição.

13% das candidaturas receberam mais da metade dos recursos Segundo o levantamento do g 1, a concentração de recursos nas candidaturas brancas e masculinas vai além daqueles que receberam os maiores valores de cada sigla. Dos R$ 2, 6 bilhões repassados pelos partidos, mais da metade do dinheiro ficou com apenas 786 candidatos.

Isso significa que menos de 14% das 5. 766 candidaturas receberam, juntas, mais de R$ 1, 3 bilhão. A outra metade do dinheiro foi dividida entre o restante, quase 5 mil candidatos (86%). Dos 25 partidos que fizeram repasses, 17 tinham maioria de homens entre os candidatos que concentraram metade dos recursos: PL, Republicanos, PP, MDB, União Brasil, PDT, Solidariedade, PRD, PT, PSD, PSDB, Avante, PSB, Podemos, PV, Novo e DC.

Apenas sete partidos tinham maioria de mulheres no grupo das candidaturas que receberam 50% dos recursos: PSOL, PCdoB, Cidadania, Missão, Mobiliza, PSTU e UP. Na Rede, há equilíbrio entre homens e mulheres. Já no recorte de cor ou raça, o DC foi o único partido em que candidatos negros eram maioria entre aqueles que concentraram aproximadamente metade dos recursos destinados pelo partido.

No PCdoB, na Rede, no Avante e na UP havia equilíbrio entre brancos e não brancos. Nos demais partidos, os brancos eram maioria. A tentativa de reeleição também é frequente entre os candidatos que concentram os recursos. Dos 786 candidatos desse grupo, 326 (41, 5%) são deputados federais eleitos ou que ocuparam o cargo como suplentes entre 2023 e 2026.

Segundo Beatriz Mendes, cientista política e pesquisadora da Universidade de São Paulo, mostra que existe uma distância muito grande entre conseguir uma indicação partidária e receber apoio para disputar uma eleição de maneira competitiva. Para ela, a justificativa de investir em quem tem maior chance de vencer precisa ser examinada criticamente, porque a competitividade também é construída pelo próprio apoio partidário.

"Quem já ocupa um mandato costuma chegar à disputa com reconhecimento público, relações políticas e uma trajetória eleitoral consolidada. Quando o financiamento reforça essas vantagens, quem tenta entrar precisa demonstrar competitividade sem ter recebido condições semelhantes para desenvolvê-la", disse Mendes.

Esposas de políticos e famosos estão entre candidaturas com mais verbas Também estão no grupo das candidaturas que receberam metade dos recursos partidários, esposas de políticos e pessoas famosas. O g 1 identificou oito candidatos com esses perfis. Apenas uma delas concorre à reeleição.

Entre as esposas, além da deputada federal Daniela do Waguinho, Sandrinha Cavalcante e Giordanna Mano - que receberam os maiores valores do Republicanos, Cidadania e PRD, respectivamente - estão ainda Virgínia Mendes, esposa do ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes; e Sirlange Maganhato, casada com o prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga.

As duas são do União, que destinou R$ 2, 9 milhões para Virgínia e R$ 2, 7 milhões para a Sirlange. Já Natália Boulos, casada com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, recebeu R$ 1, 9 milhão do Psol. Segundo Bianca Berti, as esposas de políticos que se candidatam tendem a acessar a disputa eleitoral em uma posição de vantagem.

"O capital político e social do marido pode ser mobilizado em favor das campanhas das esposas, e a posição deles dentro do partido também contribui para a obtenção de recursos e priorização dessas candidaturas", disse a analista. Entre os famosos no grupo que concentram 50% dos recursos destinados pelos partidos está o cantor Manoel Gomes.

Ele ficou conhecido pela música "Caneta Azul" e recebeu R$ 1, 2 milhão em recursos de campanha do Avante. Já a filha de Sílvio Santos, Silvia Abravanel, recebeu R$ 2, 3 milhões do PSD. Em ambos os casos, esse foi o quarto maior valor destinado pelos partidos para uma única candidatura.

Por último, a influenciadora digital Antônia Fontenelle recebeu R$ 700 mil do PSDB. Segundo Berti, os candidatos famosos têm a notoriedade agindo em seu favor, porque conseguem converter a fama em visibilidade para suas campanhas. Isso acaba sendo vantajoso para os partidos.

"A regra de distribuição proporcional de cadeiras privilegia a concentração de recursos nas candidaturas puxadoras de voto, já que essas podem garantir mais vagas para o partido e carregar outros nomes da legenda", explicou Berti. 🔎 O número de cadeiras que cada sigla ocupará no legislativo depende da quantidade total de votos que seus candidatos obtiveram, dividida pelo quociente eleitoral -- que é a razão entre o total de votos válidos no estado do candidato e o total de cadeiras na casa legislativa.

Os demais candidatos ainda precisam superar a cláusula de barreira individual, de 10% do quociente eleitoral, para que sejam efetivamente puxados pelos mais votados. Desigualdade na distribuição de recursos públicos Segundo o estudo da Transparência Brasil, dos R$ 4, 16 bilhões declarados como receitas pelos candidatos, R$ 3, 9 bilhões (93%) são recursos públicos.

Desse montante, R$ 3, 6 bilhões vieram do Fundo Eleitoral. Para Bianca Berti, a origem predominantemente pública do financiamento aumenta o peso das decisões tomadas internamente pelos partidos. “Como a maior parte das campanhas são financiadas a partir de repasses dos fundos públicos, que são decididos pelos partidos políticos, eles passam a deter um poder muito grande na hora de decidir quais candidaturas serão ou não priorizadas.” ⚠️ A lei eleitoral proíbe o financiamento de campanhas eleitorais por empresas.

As formas de financiamento permitidas são recursos públicos ou doações feitas por pessoas físicas. Para as eleições de 2026, 30 partidos receberam, juntos, R$ 4, 9 bilhões de Fundo Eleitoral. O recurso é distribuído de acordo com a representação da sigla no Congresso Nacional.

Caso o partido não tenha deputado ou senador eleito, recebe apenas a cota mínima. O PL teve a maior parcela, R$ 881, 7 milhões; seguido pelo PT, com R$ 615, 4 milhões; União Brasil, com R$ 526, 2 milhões; PSD, com R$ 421 milhões; PP, com R$ 417, 1 milhões; e MDB, com R$ 400 milhões.

Na outra ponta, dez partidos receberam somente a cota mínima, de aproximadamente R$ 3, 3 milhões cada: Agir, DC, Democrata, Missão, Mobiliza, PCB, PCO, PRTB, PSTU e UP. Um levantamento divulgado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado em setembro de 2026 mostra que a expansão do financiamento público nas campanhas eleitorais entre 2018 e 2022 reduziu a desigualdade entre os partidos na distribuição desses recursos.

No entanto, o mesmo não ocorreu dentro das legendas, onde a distribuição ainda depende dos critérios de cada partido. O estudo criou um índice para medir a desigualdade entre os partidos e a desigualdade dentro de cada partido. Quanto mais próximo de zero, menor será a desigualdade observada.

Nas eleições para deputado federal, a desigualdade entre partidos caiu pela metade (50, 5%), de 1, 024 em 2018 para 0, 507 em 2022. Já o índice dentro de cada partido diminuiu apenas 13, 75%, de 0, 589 para 0, 508.

Leia a matéria completa em g1.globo.com

Recomendadas

Política

Debate presidencial: Globo promove último encontro de candidatos antes do 1º turno

Finanças

Um terço das emendas Pix para obras em 2025 não detalha destino dos recursos

Geral

Período pré-eleitoral de 2026 é o mais violento dos últimos 10 anos, mostra pesquisa