Uma carga brasileira de produtos de higiene pessoal a caminho da Europa escondia, em frascos de xampu, cocaína. A Polícia Federal realizou uma operação secreta para rastrear o esquema e apreender as drogas no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. A investigação começou com a informação de que os cosméticos estariam sendo contaminados e enviados para a Europa.
Segundo a Polícia Federal, a fabricante é vítima do esquema. "Ela só vendia o seu produto. Ele era então retirado da fábrica dela, contaminado e exportado", diz o delegado Felipe Lavareda. Quando a denúncia surgiu, duas remessas já tinham sido enviadas para a Alemanha.
A PF acompanhou estrategicamente a terceira remessa que seria retirada. Em 14 de agosto, agentes misturados aos funcionários conferem, de dentro da fábrica, a retirada de 403 litros de xampu que iriam para Berlim, com escala em Lisboa. A carga fica mais de um dia parada.
No domingo, 16 de agosto, a movimentação recomeça. Sem saber que estão sendo seguidos, os investigados se instalam em uma casa em Diadema, na Grande São Paulo, alugada para curta temporada. Segundo a PF, os frascos são adulterados nessa casa. Entre os monitorados está uma Aline Morgado Cassaro, identificada pelos investigadores.
No dia 17 de agosto, a carga segue de Diadema para o complexo do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Os xampus passaram pelo raio-X e seguem o fluxo do terminal. Na preparação para o embarque, a mercadoria chegou à área de montagem. Ali, foi presa com uma rede de contenção e, depois, transportada pelo pátio por um trator.
Na madrugada de 19 de agosto, o avião deixa o Brasil. Só as autoridades sabiam que a remessa estava sob vigilância. Tudo foi filmado. "Não, nenhum indício de envolvimento nem da empresa que fabrica o xampu. Nem de funcionários do aeroporto, nem da companhia aérea".
Em Lisboa, a polícia portuguesa está à espera. "Tudo combinado com a gente. Eles só retiraram um dos frascos para fazer o teste, confirmaram que tinha cocaína e aguardaram para ver se alguém ia retirar ali em Lisboa. Como ninguém retirou em Lisboa, eles deixaram a carga ir até a Alemanha".
A Polícia Criminal Federal alemã acompanhou a retirada da mercadoria no destino final. Perto do local onde ela seria descarregada, os agentes intervêm. Três suspeitos são presos. Samir Shahade, administrador da importadora que encomendou os produtos, é preso dias depois, na Turquia.
Esconder droga em xampu não é um caso isolado. Policiais já encontraram cocaína incorporada a líquidos, plásticos, tecidos, carvão e até cera de abelha. Um relatório da ONU aponta que a chamada camuflagem química está em ascensão na Europa, onde laboratórios clandestinos de extração de cocaína têm sido descobertos.
Segundo a polícia holandesa, grupos criminosos chegam a contratar especialistas colombianos para separar a droga do material usado como disfarce. "Tem várias formas disso acontecer. Para pegar exemplos do dia a dia, é como dissolver açúcar em água. Você deixa de enxergar o pó e enxerga uma solução basicamente transparentem, mas não deixa de ser açúcar.
Se você evaporar essa água, você volta a ter o açúcar", explica Aline Thais Bruni, professora de Química Forense da USP Ribeirão Preto. Há poucos dias, em Valência, na Espanha, mais de oito quilos de cocaína líquida também foram encontrados em frascos de xampu.
Para disfarçar, os recipientes tinham um pequeno reservatório com xampu de verdade no gargalo do frasco. Em Hong Kong, em 2023, a droga apareceu de outro jeito: eram 17 lençóis embebidos em cocaína líquida. A apreensão somava dez quilos. No caso da carga brasileira despachada para a Alemanha, ainda não se sabe qual método foi utilizado.
"A gente tá aguardando ainda as análises do laboratório da polícia alemã para saber exatamente se ela foi transformada em cocaína líquida ou se foi colocada dentro de um saco, ela em pó mesmo, ali dentro do pote de xampu", relata o delegado. Depois de um mês agindo em sigilo, a Polícia Federal parte para a ação.
No dia 15 de setembro, é deflagrada a Operação Anticaspa. Aline Morgado Cassaro, que aparece nas imagens acompanhando a movimentação da carga em Diadema, é presa. Também é preso Danilo de Oliveira. Na casa dele, a PF encontrou frascos do mesmo xampu e recipientes com ácido clorídrico, produto usado no refino da cocaína.
O motorista que retirou a carga, Marcelo Andrade dos Passos, está foragido. Aline já tinha sido identificada em outra ocorrência com cocaína poucas semanas antes. Em 28 de julho, ela estava num carro parado na Rodovia Presidente Dutra com 50 tabletes da droga.
O motorista disse à polícia que ela não sabia de nada. Ele ficou preso e ela foi liberada. Pela Operação Anticaspa, Aline teve prisão temporária decretada por 30 dias. A defesa pediu a revogação da medida: "Posso garantir com absoluta certeza que vamos provar a sua inocência".
A defesa de Danilo de Oliveira não foi localizada. As prisões encerram uma fase da investigação, mas o caso revela um desafio que vai muito além dessa carga. "Toda vez que alguma forma de tráfico começa a ficar muito comum, naturalmente a polícia fecha aquela porta e eles evoluem para outra modalidade.
Aí a gente acaba descobrindo essa outra modalidade e também tenta fechar essa porta. Fica esse gato e rato". GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do FantásticoISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g 1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação.
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