As orcas (Orcinus orca) estão entre os animais mais temidos da natureza. Predadores de topo, há vários registros do maior representante da família dos golfinhos oceânicos atacando diversos bichos em busca de alimento, incluindo tubarões-brancos (Carcharodon carcharias) , considerados os “reis” do mar.
Apesar de suas credenciais causarem medo em qualquer um, por incrível que pareça, ao avistar um humano na natureza, dificilmente as orcas irão atacar. A falta de iniciativa tem uma explicação simples e direta:os humanos não estão presentes no ambiente delas e, por isso, não fazem parte da dieta tradicional de nenhuma população desses animais. Leia também Ciência Orcas caçadoras de tubarão-branco têm medo de golfinhos pequenos Ciência Durante a caça, orcas “brincam” com peixe-lua até animal explodir Ciência Golfinho “ladrão de comida” faz peixes regurgitarem para roubar refeição É o bicho! Golfinho “em luto” é visto carregando filhote morto pelo mar por dias
“A ciência atribui essa ausência de ataques principalmente à extrema especialização alimentar e à transmissão cultural das orcas. Elas não caçam por instinto cego, mas sim com base no aprendizado acumulado por gerações dentro de suas unidades familiares”, explica a bióloga e ecóloga Morgana Bruno, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Predadoras seletivas
Mesmo sendo grandes caçadoras, as orcas são predadoras extremamente seletivas.Muito dessa exigência alimentar se dá justamente pela inteligência desses animais , que são capazes de reconhecer na água o que lhes interessa ou não.
“As orcas são animais muito inteligentes e com sentidos aguçados. Elas avaliam rapidamente o formato e os movimentos de qualquer criatura na água, compreendendo com facilidade que somos muito diferentes dos animais marinhos dos quais se alimentam”, diz o biólogo Matheus Félix, do AquaRio.
Além de ter alta capacidade de processamento cognitivo, percepção social e autoconsciência, as orcas ainda contam com um sistema avançado de ecolocalização , que permite aos animais perceberem a estrutura acústica dos indivíduos presentes no mar – ou seja, mesmo que você encontre uma orca, ela vai entender, por meio de suas características, que não se trata de uma presa.
Os especialistas afirmam queacrescentar humanos como mais uma opção na dieta pode ser um processo adaptativo custoso e ainda pode provocar riscos desnecessários. “O comportamento social das orcas é baseado no conservadorismo alimentar. Se a matriarca do grupo não ensina que os humanos são presas, as gerações seguintes sequer cogitarão testar essa nova fonte de alimento ”, afirma Morgana. Em cativeiro, a situação pode mudar
A falta de ataques de orcas a humanos é algo visto somente na natureza. Quando o animal é mantido em cativeiro , como em parques temáticos, a situação pode ser totalmente diferente.
Isso porque manter esses animais extremamente sociais em ambientes pequenos e distintos de seu habitat provoca isolamento social e privação sensorial, o que, por consequência, pode gerar estresse e condições psicológicas capazes de mudar o comportamento do bicho e torná-lo mais agressivo.“Há uma diferença abissal entre o comportamento de orcas selvagens e orcas em cativeiro”, ressalta a bióloga. Então é seguro estar perto de orcas?
A resposta é simples: não . As orcas são animais gigantes em comprimento e peso.Qualquer encontro físico mais próximo pode resultar em acidentes perigosos , mesmo que as elas não vejam os humanos como presa.
“Se uma orca decidir interagir fisicamente com um mergulhador, empurrando-o ou puxando-o para o fundo por pura curiosidade, como fazem com objetos flutuantes, isso pode causar afogamento ou hipotermia profunda”, alerta Morgana.
Estar no território delas ou se aproximar de filhotes pode gerar respostas de ataque por parte do animal. “Em algumas regiões do mundo, orcas adquiriram o hábito de interagir com embarcações, o que pode causar danos físicos aos barcos e gerar acidentes no mar”, acrescenta Félix.

