Thiago Lacerda chegou à televisão muito jovem, quando ainda descobria o próprio ofício. Quase trinta anos depois de entrar pela primeira vez num estúdio de televisão, ele volta às novelas trazendo no corpo tudo o que viveu longe delas: o silêncio do teatro, a inquietação da literatura e as perguntas que só o tempo sabe fazer.
Nesse caminho, ele já foi o jovem Matteo, que saiu de Terra Nostra para entrar na memória afetiva do Brasil. Enfrentou as dúvidas de Hamlet, a ambição de Macbeth, o absurdo de Camus e o Jesus profundamente humano de Saramago — num Brasil em que há igrejas que transformam Jesus em instrumento político para desumanizar o outro. Viveu heróis, homens feridos e figuras da nossa História. Fora de cena, descobriu também que cultivar a terra, o lúpulo e a própria cerveja pode ser outra maneira de criar.
Hoje, mais do que percorrer uma carreira, quero conversar sobre aquilo que ficou depois de tantos personagens: o que o ofício transformou nele, o que a vida ensinou ao ator e quem é o homem que retorna agora à televisão. Thiago Lacerda deu a entrevista a ao programa semanalQue Dia , apresentado por este colunista. A ideia do programa é que gente traga os nomes mais importantes da literatura, da teledramaturgia, da MPB, sempre uma vez por semana. Abaixo o primeiro treco dessa conversa que será dividida em duas partes.
Coluna – Thiago, Por Você marca sua volta à televisão aberta depois de três anos muito dedicados ao teatro, ao cinema e ao streaming. Você disse que voltou a um lugar onde se sente em casa. Mas quem voltou é o mesmo ator que saiu? O que esses três anos fora da rotina de uma novela mudaram na sua maneira de atuar diante de uma câmera?
Tiago Lacerda – Esse tempo fora da TV era um tempo previsto e combinado que precisava acontecer e aconteceu de forma muito natural. Encerrei um ciclo de mais de 25 anos na TV, numa relação que eu conhecia muito bem, numa casa que me acolhe no início da minha jornada profissional. Por isso, essa referência à casa. Essa ideia de que, desde o começo da minha jornada de trabalho – a minha jornada contando histórias -, eu estou, de alguma maneira, envolvido com a emissora, contando histórias ali, naquele espaço, entre aquelas pessoas, para aquele público.
O encerramento de ciclo exige um momento de estranhamento normal. Então, apesar de ser um processo natural, conhecido e previsto, foi um tempo de tentar entender algumas coisas, especialmente o que aconteceu nesses 25 anos que estavam se encerrando ali, naquele momento de transformação e para onde olhar nos próximos anos para a frente.
Esse tempo todo longe da TV foi um tempo de bastante reflexão, de muitas coisas acontecendo ao redor. A pandemia, que coincide mais ou menos com essa época, me trouxe muitas coisas naquele momento de clausura, muitas coisas sobre o meu trabalho.
A pandemia me deu dois monólogos, então foi também um tempo de me dedicar a outras necessidades artísticas. Nesse sentido, a pandemia e o pós-pandemia trouxeram muito esse momento de poder voltar às novelas, poder voltar às novelas pelas mãos do André, que é um grande parceiro, que me fez o convite, voltar às novelas com um personagem tão interessante, tão humano quanto o Gabriel. Voltar às novelas com uma boa história, com um bom elenco, com uma equipe que se conhece. Tem sido muito significativo para mim esse recomeço de ciclo, esse recomeço até mesmo de história dentro da própria emissora e tudo mais, num outro formato de uma outra maneira. Mas, tudo isso enriquece a gente, né, Mateus?
O que eu faço é, na verdade, um acúmulo das minhas vivências, das minhas experiências. Acho que todo esse processo de transformação traz amadurecimento e traz amadurecimento artístico também, que passa um pouco por essa reflexão sobre a minha carreira na TV e por esse trabalho todo, com as peças, com os monólogos que a pandemia trouxe, com a minha maneira de trazer a minha contação de história proteatro e toda a importância que o teatro tem na minha carreira. Agora, com o streaming, nesse momento também eu estive fazendo uma história que me interessava muito, já há muitos anos. Tive a chance de fazer lá com Ângela Diniz e Ibrahim Sued um personagem que eu me recordo e tudo mais.
Então, foi interessante. Novas possibilidades, novos espaços de contação de história. Mas, acima de tudo, a origem da minha jornada está um pouco na TV. Me sinto relativamente em casa quando eu volto para contar a história nas novelas.
Coluna – Você interpreta Gabriel, um homem que foi abandonado pelos pais e cresceu numa casa de acolhimento. Quando se torna pai, ele procura oferecer à filha justamente o afeto que não recebeu. Você enxerga a paternidade dele como uma forma de reparação? E como se representa uma ferida que o personagem talvez passe a vida inteira tentando esconder?
Tiago Lacerda – É essa beleza que a arte tem: de servir como um canal de reflexão, de transformação, de cura mesmo. A novela trata de temas muito profundos. A novela trata de traumas, trata de rejeição, de abandono, de distanciamento. Essa coisa da figura masculina dos pais — a distância das figuras masculinas — é recorrente na nossa história.
Ele tem a oportunidade de trazer uma maneira de se relacionar com a filha que passa por esse trauma pessoal, essa jornada que ele carrega com ele, esse trauma da rejeição.
E, de uma certa maneira, a relação da filha é reparação afetiva, é uma reparação emocional que esse personagem busca em si mesmo. E, com isso, traz pra gente e para o espectador uma oportunidade bonita sobre essa relação pai e filha, ainda que permeada por tanta dor, pelos traumas do personagem.
O Gabriel reencontra a Bela, um grande amor da juventude. Eu mesmo já vivi momentos em que reencontrei um amor da juventude e sei como isso mexe com a gente, com a memória, com aquilo que a gente foi e até com a imaginação do que poderia ter sido aquela relação. Como você leva essa experiência tão humana para o Gabriel? O que esse reencontro desperta nele?
Fico muito interessado por essa pergunta, Mateus. Poxa vida, como teria sido se tivesse sido diferente? Fico pensando que existe um desencontro muito importante na relação do Gabriel com a Bela. O fato é que a vida sugeriu algumas escolhas, algumas decisões. O Gabriel tomou decisões e vive e convive com as consequências dessa decisão.
Faz parte da discussão da novela: como teria sido? Como seria possível esse reencontro? Será que a vida vai ser generosa com os dois? Essa dúvida e essa pergunta são um pouco o que permeia essas relações. Agora sim, é um personagem que traz essa chaga afetiva, essa chaga amorosa. Vamos ver como o público vai responder, como os autores vão conduzir a história. Mas acho muito bonita essa investigação. Eu estou muito curioso para ver como o Gabriel e a Bela vão se reencontrar. Como isso pode ser possível num debate em dias de hoje.
Coluna – Thiago, quando você fez o Matteo de Terra Nostra, eu estava no colégio. Matheus ainda não era um nome tão popular quanto é hoje, e eu virei Matteo também. Meus colegas me chamavam assim, embora logo esclarecessem que a semelhança terminava no nome, porque eu não tinha a sua beleza. Foi quando percebi que aquele personagem tinha saído da televisão e entrado na vida das pessoas. Quando você percebeu que Matteo havia mudado a sua vida?
Tiago Lacerda – Me dei conta do que havia nas minhas mãos logo que recebi o convite pro personagem. Tinha tido uma busca por ele, para fazer o teste. Pedi para fazer o personagem sem saber que seria o teste propersonagem. Quando passei no teste e o convite me foi feito pelo Jayme Monjardim, tive muita clareza do que aquilo significava na minha vida, de que aquela era a grande oportunidade profissional que eu tinha naquele momento e que isso só dependia de mim. Alcançar êxito ali, se eu conseguisse chegar na história dele, seria uma experiência única. E foi.
Acho que eu me dou conta, de forma concreta, do sucesso que o personagem faria, do sucesso que a Ana faria, que o casal faria. No réveillon de 1999 para 2000, eu me lembro de passar por uma banca de jornal e me vi na capa de sete das oito revistas que haviam na banca. Me dei conta de que aquele momento era um momento único, era um momento delicado. Precisava buscar compreender e, acima de tudo, devia me proteger dessas coisas que vêm a reboque, que vêm junto com uma profissão exposta. Sucesso de estar na televisão: as pessoas gostam de você. Precisava, de alguma maneira, me proteger daquilo, porque eu precisava trabalhar. Eu não tinha tempo de me deslumbrar com aquilo, de acreditar naquilo tudo.
Era um menino de 21, 22 anos querendo surfar aquela onda. Mas, acima de tudo, dedicado à responsabilidade de contar a história de um personagem tão bonito, tão marcante. Marcou a memória de quem acompanha as novelas, a memória de quem viveu aquele tempo. Marcou a minha vida e transformou a minha vida de forma definitiva. E é muito bonito esse lugar de ser companhia para as pessoas, num lugar gostoso de memória afetiva.
Pessoas sempre me param para dizer: “Poxa, eu lembro da novela, é a história da minha avó, do meu avô, é a história da minha mãe. Eu assistia com a minha família. Eu lembro do meu irmão quando eu te via. Tem uma beleza muito incrível nessa profissão, nesse personagem, nessa história. Um privilégio gigante poder ter vivido aquilo, poder ter defendido aquela história e tudo que aconteceu depois. Realmente é uma coisa muito impressionante. Uma experiência de vida única essa coisa da exposição e protagonismo num horário tão popular, com um veículo tão popular, realmente incrível.”
Coluna – Você pode falar um pouco de novo sobre o teste? Foi um teste difícil?
Tiago Lacerda – Essa história é interessante, porque era essa coisa de menino. Estava fazendo minha primeira novela na emissora quando fiquei sabendo, nos corredores, que a Globo faria a novela do século. Isso era 1999. A Globo ia fazer a novela do século: Pantanal, com Jayme Monjardim, Benedito Ruy Barbosa, Ana Paula Arósio, Fagundes, Saul Cortez, um elenco gigante. E eu fiquei naquela, menino começando a minha carreira: “Poxa, que legal seria participar dessa novela do século! Aquela novela maravilhosa, deve ser incrível, imagina.” E aí, um dia, saindo do estúdio — eu gravei e saí cedo —, tinha um pôr do sol bonito, um dia agradável. E, saindo do Projac, me deu essa ideia.
Eu falei: “Pô, estou com tempo, acho que eu vou voltar e vou perguntar.” E me informei onde era a produção da próxima novela das nove e fui bater na porta. Quando abri e perguntei quem era a produtora de elenco, a produtora de elenco estava na minha frente dizendo: “Ah, pois é, eu já comentei de você, eh, com Jayme e tal.” E eu falei: “Poxa, queria saber se tem um teste, eu estou aqui fazendo a novela das sete.” “É, eu sei quem você é. O teste, claro, é um teste propersonagem par da Ana Paula.” Eu pensei: “Não, não, não, não precisa tanto.” Bom, me dei conta de que eles sabiam quem eu era e que aquilo era um teste importante. Fui para casa estudar e, mais tarde, fiquei sabendo que o Jayme já procurava o ator fazia muito tempo. Ele já vinha atravessando um momento de urgência para um ator para fazer a novela. Já tinha muito pouco tempo até os primeiros dias de gravação.
E eu fui fazer o teste, cheguei para fazer, fiz logo cedo. Me lembro que eu estava com a atriz que fazia comigo, que, por acaso, fez comigo a novela — Carolina Kasting, uma colega que eu amo. E a Carol fazendo o teste comigo, a câmera aqui assim, e o Jayme atrás das câmeras falando no telefone. E quando eu comecei a fazer o teste, ele parou no meio, desligou o telefone e pediu para começar de novo. Comecei o teste de novo e, quando terminei, ele veio falar comigo me olhando, perguntando se eu falava italiano. Me lembro de uma frase maravilhosa que eu disse para ele. O Jayme, com um olhar de quem busca algo por muito tempo e enfim encontra, falou: “Você fala italiano?” Eu falei: “Não, mas eu aprendo que é uma maravilha.”
Coluna – Você já viveu Hamlet, Macbeth e Ângelo, de Medida por Medida. Shakespeare coloca seus personagens diante de conflitos morais enormes, mas raramente entrega uma resposta sobre quem está certo. O que existe nessa dramaturgia que permite a um ator continuar encontrando coisas novas em textos escritos há mais de quatro séculos?
É uma pergunta que faz muito sentido. Por que, depois de tanto tempo, as pessoas seguem contando essas histórias? Diria que primeiro porque são histórias maravilhosas. O cara escreveu realmente histórias incríveis.
Segundo, me parece que essas histórias maravilhosas, essas histórias incríveis, acompanham a espécie por muito tempo. Enquanto houver um ser humano de pé por aí, Shakespeare vai fazer sentido, porque diz respeito a nós, às nossas contradições, aos nossos conflitos, à nossa busca. E eu tenho a impressão de que hoje sempre faz sentido, porque é essencial que a gente traga essa referência humana para o aqui e agora. Me parece essencial que essa provocação não fique na data, que ela seja decodificada para os dias de hoje.
Razão pela qual é muito potente você imaginar o cenário atual e lembrar do Macbeth, por exemplo. O Macbeth é uma tragédia de um sujeito bom que, por ambição, se corrompe até não existir mais como humano. Acho que essa degradação pela ambição diz muito sobre a luta pelo poder que a gente acompanha hoje, por exemplo, no Brasil, né? A gente poderia imaginar que escolher perpetrar um golpe de Estado pode ser associado à escolha do Macbeth de dar aquela facada no rei. Existem algumas decisões que, quando são, não permitem retorno. A gente viu o fascismo dar passos que a nossa geração não imaginou que pudesse ser capaz.
A gente viu que veio a se revelar agora o João Cezar de Castro Rocha — o professor João Cezar, maravilhoso —, que escreveu um livro associando os tempos atuais ao de Ricardo III. A reflexão dele é genial. Então você imagina que o Ricardo III é o indivíduo que, pela primeira vez, não se preocupa em esconder a própria vilania. Ricardo III é o sujeito que entra em cena e, com toda a desfaçatez do mundo, fala: “Eu sou o vilão e vou provar isso para vocês. Vou provar fazendo isso, isso, isso, isso e isso.”
Quer coisa mais contemporânea do que aquele sujeito horroroso que assumiu lá os Estados Unidos? Patético! Que momento trágico da história da humanidade. Esse sujeito perdeu completamente a vergonha. Não só ele: tem toda uma horda de horrorosos que perderam a vergonha de serem horrorosos. A rede social deu voz para essa gente. Isso é Shakespeare. Isso é absolutamente Shakespeare. Então, por que Shakespeare? Porque ele é essencial. Por que hoje? Porque ainda hoje é essencial. E talvez sempre seja essencial. A capacidade que Shakespeare tem de enfiar o dedo na nossa precariedade humana, de nos revelar essas contradições, esses cantinhos que muitas vezes a gente se recusa a iluminar. O cara traz isso à evidência de uma forma única, e isso tudo é muito potente.
Coluna – Você falando dessa desumanização, eu lembrei de que eu sou filho de torturados políticos da ditadura militar. Fiz um livro no qual eu descubro quem são esses torturadores. O país não sabia quem eram esses torturadores. Minha mãe foi torturada grávida. Ela estava grávida aos 19 anos e foi colocada numa cela com uma cobra, uma história conhecida. Meu pai foi barbaramente torturado, tem marcas pelo corpo e ficou dois anos preso, entre 1972 e 1974. E essa desumanização que a gente vê nos dias atuais me assusta. Por quê? Porque eu vi um presidente da República ser eleito fazendo chacota da tortura que meus pais sofreram. Isso cabe nesse contexto que você estava falando, de que Hamlet e todos esses personagens são tão atuais.
Tiago Lacerda – O horror. O horror, a forma como tudo isso representa o horror e a forma como a gente está negligenciando esses sinais. Fico me perguntando como é possível uma sociedade, ao acompanhar, ao assistir aquele voto, aquele sujeito horroroso, dedicar o voto à interrupção do processo democrático no Brasil, a um torturador? Como é que pode alguém, em sã consciência, uma sociedade inteira em sã consciência, achar que a opção para alguma coisa que você não gosta, ou não entende, ou não participa, a opção a isso é o horror? Legitimar aquele discurso. Discurso de torturadores, associação dessa gente com pedófilos, com criminosos. Um discurso de misóginos, de preconceituosos, de gente ignorante, gente que depõe contra a ciência, contra a educação, contra o que há de mais razoável nas convenções sociais, humanas. Como é que pode uma sociedade inteira olhar para isso e achar que, sob qualquer argumento, isso é uma opção?
E mais: em 2016. A gente está vendo essa horda persistir no intento golpista de maneira transparente, clara. Essa gente perdeu completamente a vergonha de se revelar e o pudor de ser perverso, de ser ignorante, de ser violento, de ser horroroso. É um tempo muito difícil, meu irmão. Historicamente, é um tempo muito difícil.
Nunca imaginei que a nossa geração fosse passar por algo parecido com isso, mas, talvez, como diz o Camus — a gente estava falando do Shakespeare e aí a gente vai chegar no Camus, que eu sei que você está louco também para ir por esse lugar —, talvez isso seja assim: talvez o mal não desapareça.
Talvez o mal fique escondido, aguardando a imunidade democrática das sociedades baixar para ele ter coragem de voltar à luz do sol, de proliferar novamente como um tumor mesmo, a violência, o autoritarismo, o fascismo. É um pouco essa imagem. Então, o que a gente tem que fazer, talvez, seja estar atentos e fortes sempre.
Coluna – Você encontrou Camus em dois momentos diferentes da carreira: primeiro como Calígula e, muitos anos depois, como o doutor Rieux, de A Peste. Como um ator transforma ideias como o absurdo, a liberdade e a responsabilidade diante do outro em ação teatral, sem deixar que o palco se transforme apenas no lugar das ideias?
Tiago Lacerda – Essa ideia de trazer a ação para o espaço de cena é essencial. É essencial que a gente não fique só na reflexão, para não ficar no tratado intelectual, que é chato para caramba. Mas a verdade é que Camus traz reflexões que acompanham a esteira do que Shakespeare propõe.
Tenho certeza de que Camus leu Shakespeare. Tenho certeza de que Camus leu Hamlet para escrever, por exemplo, Calígula. E eu me lembro de que, em 2009, quando Gabriel Villela — que é outro diretor que transformou a minha maneira de enxergar o meu ofício — me convidou para fazer Calígula, eu me conectei com a obra de Camus. E, naquele momento, eu era resignado com a ideia de que eu não faria Hamlet. Eu tinha uma certa implicância, porque é isso: a peça mais feita, mais falada, mais famosa, mais importante; todo mundo faz. Eu falei: “Não, o meu Hamlet é o Calígula.”
E eu segui nessa. Só que, sem saber, Calígula me traz Hamlet. Um amigo me convida, dois anos depois, três anos depois, para fazer Hamlet. E isso era em função do Calígula que eu tinha feito. E muito do meu Hamlet vem com Calígula. Muito do meu Hamlet tem Camus. E, na verdade, eu sinto que tem essa esteira de provocação humana, e sinto que falta uma pecinha no meio entre Shakespeare e Camus. Eu estou muito interessado nos russos, como Dostoiévski. Quem sabe para o futuro?
Ando aqui às voltas um pouco com a obra, mas essa esteira de provocação a respeito da condição humana me interessa muito como objeto de investigação artística. A minha trajetória no teatro já tem treze anos nessa pesquisa shakespeareana, permeada pelos meus encontros com Camus e, agora, com A Peste, que faz parte da minha realidade. Pretendo fazer o monólogo por muitos e muitos anos. Mas sinto que, em algum momento, eu vou querer voltar para encontrar os russos. Dostoiévski está na minha alça de mira. Vai ser incrível esse processo. Já posso antecipar, mas quem sabe um dia.
Coluna – Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, você interpretou um Jesus profundamente humano, criado por Saramago e levado ao palco numa adaptação de Maria Adelaide Amaral. O que acontece com um personagem quando ele atravessa três linguagens tão fortes: a tradição bíblica, a literatura de Saramago e, finalmente, o corpo do ator?
Não sei se eu conseguiria te responder exatamente o que acontece. Foi um momento de impacto profundo, a maneira como a obra me captura. Essa história também foi muito impressionante, porque eu tinha assistido à peça, eu tinha assistido à montagem do Evangelho aqui no Rio. Eu tinha uma viagem marcada para Portugal uma semana depois da apresentação que eu assisti.
Na volta de Portugal, encontrei o livro numa vitrine sem querer, numa livraria no aeroporto de Lisboa. Voltando, embarcando, passei na vitrine, estava o livro, e imediatamente entrei e comprei, porque eu tinha absolutamente enlouquecido com a montagem. Chego no Rio de Janeiro; três dias depois, a produtora me liga dizendo que o ator que fazia não ia poder mais fazer e perguntando se eu queria substituir. Imediatamente aceitei. Então, o meu encontro com Saramago, ele tem esse lugar do mistério.
A minha origem é uma origem católica, mas a maneira como a obra de Saramago transforma a minha leitura sobre as escrituras é gigante. A forma como ele humaniza os personagens me pegou de um jeito definitivo. Foi um momento bonito, porque eu volto para essa história, volto para esse personagem. Fiz esse personagem por muitos anos. Esse tema sempre me interessou. Contei essa história de várias formas, e eu posso dizer que o desafio de trazer o menino para toda essa mitologia, para toda essa escritura sagrada, foi das coisas mais bonitas que me aconteceram em cena.
Realmente, a obra de Saramago me transforma, transforma a minha maneira de ler o que eu li há muitos anos e que passei lendo depois. E realmente foi um momento muito especial da minha carreira. Tenho muito orgulho. Tenho no meu currículo uma coletiva de imprensa com ele e uma apresentação para ele e para Pilar del Río. São duas pessoas que eu amo de forma gratuita. Minha conexão com eles é quase silenciosa, e foi muito especial tudo isso também.
Thiago, eu tenho a impressão de que você carrega muito axé e mantém uma proximidade respeitosa com as religiões de matriz africana. Essa percepção faz sentido? Que lugar a fé ocupa na sua vida?
Tenho uma tradição católica, minha origem é católica, mas muito cedo comecei a questionar aquilo tudo. Desde cedo me interessei por essa história e, na verdade, minha profissão traz essa possibilidade de mergulho mais profundo.
Quando começo a me envolver com um personagem, volto à história de um outro jeito, um jeito que não é mais só o que eu herdei. Fui investigar a história, investigar os personagens. E todo esse movimento, na verdade, me leva para outras religiões. Então, muito cedo eu li bastante sobre muita coisa. Me envolvi com algumas religiões e aprendi a reconhecer nelas a sabedoria que tem ali.
Descobri que é isso que sempre me interessou. Então, não tenho hoje uma prática por escolha. O que me aproxima das religiões sempre foi a literatura. A minha proximidade com as religiões de matriz africana acontece da mesma forma que eu me aproximei do kardecismo, que eu me aproximei da Cabala, que eu me aproximei do Alcorão, que eu me aproximei do budismo, das religiões de raiz oriental. Mas as religiões de matriz africana me capturaram por uma mitologia natural, pelas histórias, pela literatura e pelo respeito a todas elas. Então, hoje eu posso te dizer que o que me interessa é a sabedoria contida em cada uma delas.
Quando eu tenho que conversar com Deus, muitas vezes as minhas orações têm uma origem católica. Mas muitas vezes é uma conversa por outros caminhos, uma conversa muito pessoal. Geralmente acontece quando eu estou em espaços naturais, acontece quando eu estou na natureza. O meu templo é a natureza desde sempre. Posso dizer que eu sou uma mistura dos caminhos por onde eu passeei, das histórias que eu li, da mitologia que eu absorvi. Me sinto protegido pelos meus orixás, pelos meus anjos da guarda, pela minha ancestralidade que me acompanha. Me sinto protegido de muitas maneiras e me comunico com a minha fé, acesso à minha fé de um jeito muito particular, muito bonito, muito honesto, sempre pelo afeto, pelo amor, pelo respeito, pela mitologia, pela literatura, pela contação de história também.
Coluna – Isso é bonito demais. A gente vai amadurecendo também ao longo da vida e vai ampliando o nosso olhar espiritual. Isso aconteceu comigo também. Uma hora eu vou te contar das minhas experiências.
Vamos trocar essa ideia, que essa resenha é boa. No final, é só sobre isso: a maneira como cada jornada convoca o indivíduo. Todo mundo tem possibilidade de escolher aquilo que lhe conforta mais, aquilo que lhe diz mais respeito. Essa liberdade e esse exercício livre da fé, das muitas possibilidades, é uma das coisas mais preciosas que a gente tem na nossa sociedade. Uma sociedade tão diversa, tão múltipla.
Eu aprendi a respeitar e a reconhecer cada um dos caminhos. Aprendi a aceitar que não existe a verdade. Esse papo de verdade, de “eu sou a verdade” e “tá no meu caminho”, na verdade “tá na minha igreja”, “tá no meu culto” ou “tá na minha religião”. Isso tudo me parece tão, tão frágil. Existe tanta sabedoria contida em vários caminhos, em vários caminhos existentes. Eu acho que a busca é alcançar aquilo que te diz mais respeito, aquilo que te acolhe de uma maneira mais ampla. Mas o exercício da fé pode ser muito bonito. Não precisa ser algo castrador, algo agressivo, excludente, violento. Como, às vezes, a gente vê as pessoas confundindo.

