Belo Horizonte – Minas Gerais entra na primavera sob a influência de um El Niño que pode alterar o regime de chuvas e aumentar os desafios para produtores rurais. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno seja classificado como muito forte entre setembro e novembro , período que coincide com o início da estação chuvosa e fases importantes do calendário agrícola.
Para os agricultores mineiros, a principal preocupação está relacionada à irregularidade das chuvas. O cenário projetado pelo Inmet aponta maior probabilidade de precipitações abaixo da média em partes de Minas Gerais, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima do normal em grande parte do país.
O comportamento do clima pode interferir diretamente no planejamento das lavouras, principalmente em áreas que dependem das chuvas. O próprio Inmet destaca a importância do acompanhamento das condições meteorológicas para decisões relacionadas à agricultura, aos níveis de água no solo e à disponibilidade hídrica. Café entra no centro das preocupações
Um dos setores que acompanham de perto as mudanças no clima é a cafeicultura. O Sul de Minas concentra uma das principais áreas produtoras do país e atravessa um período importante para o desenvolvimento dos cafezais.
Em boletim divulgado em agosto, o Inmet apontou previsão de retorno das chuvas para áreas produtoras do Sudeste, incluindo oSul de Minas e a Serra da Mantiqueira . A precipitação pode interromper atividades de colheita e secagem, mas também desempenha papel importante na chamada“chuva de florada” , que favorece a abertura das flores dos cafezais. O problema é que a distribuição dessas chuvas ao longo das semanas seguintes pode fazer diferença para a produção. Uma nova estiagem depois da florada pode prejudicar opegamento dos frutos e provocar desuniformidade no desenvolvimento das plantas. Ao mesmo tempo, chuvas fortes e concentradas em pouco tempo representam outro tipo de risco. Foi justamente o que ocorreu recentemente em municípios do Sul de Minas. Granizo atinge lavouras e preocupa produtores Na terça-feira (15/9), uma forte tempestade acompanhada de granizo atingiu diferentes cidades do Sul de Minas. Em Varginha, o Inmet registrou 22, 6 milímetros de chuva em apenas uma hora . O temporal também provocou danos em áreas urbanas e rurais. Nas lavouras de café, a preocupação aumentou porque o granizo atingiu os cafezais durante o período de florada. As pedras de gelo derrubaram flores e provocaram danos em folhas e galhos, o que pode comprometer parte da produção da próxima safra. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Varginha, Arnaldo Bottrel, estima inicialmente que cerca de dez municípios tenham sido atingidos. Segundo ele, ainda é necessário levantar a quantidade de hectares e as diferentes culturas afetadas. O presidente da Associação dos Sindicatos Rurais do Sul de Minas (Assul), José Eduardo Nunes de Souza, estima que cerca de 200 propriedades rurais tenham sido atingidas. Segundo ele, as perdas financeiras podem chegar a pelo menosR$ 50 milhões . Os números, porém, são estimativas iniciais e ainda não representam um levantamento oficial consolidado. A dimensão dos prejuízos poderá mudar conforme produtores, sindicatos e entidades concluam as avaliações das áreas atingidas. Entidades do agro acompanham efeitos do clima As preocupações com os efeitos do clima sobre a agricultura mineira não são novas. OSistema Faemg/Senar já havia alertado , durante episódios anteriores de El Niño, para os impactos da redução das chuvas e das temperaturas elevadas sobre as lavouras do Estado. Na cafeicultura, a entidade destacou que o comportamento das chuvas e das temperaturas pode interferir em diferentes etapas do ciclo da planta, incluindo a florada, o pegamento dos frutos e o desenvolvimento dos grãos. Em 2026, a própria Faemg registrou problemas provocados pelo comportamento das chuvas no Sul de Minas. Em julho, a entidade informou que apenas 30% da colheita de café havia sido concluída na região , segundo levantamento realizado com 32 técnicos do Programa ATeG, que acompanham cerca de 900 propriedades. Entre os problemas estavam paralisações, atrasos e perda de qualidade dos grãos. A Emater-MG também mantém levantamentos sobre os impactos das intempéries na cafeicultura. Em um estudo sobre perdas provocadas por eventos climáticos, o Sul de Minas concentrou 66% do impacto registrado nas áreas de café em sistema de sequeiro. A Cooxupé informou ao Metrópoles Minas que ainda não possui informações detalhadas sobre o cenário provocado pelo granizo em algumas regiões de sua área de atuação. Segundo a cooperativa, técnicos estão em campo realizando um levantamento sobre os possíveis impactos e para dimensionar a extensão dos danos nas áreas atingidas. El Niño pode favorecer temporais e aumenta atenção em Minas O El Niño também entra no cenário das condições que podem favorecer períodos de instabilidade em Minas Gerais. Segundo o climatologista Ruibran dos Reis, consultor em Climatologia e Mudanças Climáticas e diretor regional da Climatempo em Belo Horizonte, o fenômeno já está estabelecido na região do Pacífico Equatorial e pode ter influência sobre as condições que provocaram a ocorrência de granizo no Sul de Minas. “O El Niño já foi estabelecido desde meio de maio. No momento, a temperatura nesse local já está em 2, 7 graus, muito elevada. Então, essa chuva de granizo que aconteceu no Sul de Minas pode sim ter influência do El Niño”, afirmou Ruibran. O climatologista explica que o fenômeno está associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico. De acordo com ele, a intensidade atual do aquecimento contribui para alterações no comportamento atmosférico e deve ser considerada nas previsões para os próximos meses. A avaliação de Ruibran ocorre em um momento de transição para a primavera, estação que começa oficialmente nesta terça-feira (22/9) . O Inmet também prevê a intensificação do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026 e aponta elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante a primavera e o início do verão. Leia também Minas Gerais El Niño: Defesa Civil de BH inicia treinamento para período chuvoso 2026/27 Brasil El Niño tem 90% de chance de ser “muito forte” no Brasil durante primavera Mundo ONU: El Niño deve aumentar os riscos de eventos extremos até 2027 Minas Gerais Chuva de granizo castiga o Sul de Minas e deixa rastro de destruição Previsão de temp 0 rais para próximos dias Além dos efeitos sobre o comportamento das chuvas, o climatologista chama a atenção para a possibilidade de novos temporais nos próximos dias. Segundo Ruibran, uma frente fria deve avançar sobre Minas Gerais e provocar condições favoráveis a chuva, raios, rajadas de vento e até granizo. “Estamos prevendo a chegada de uma frente fria. Minas Gerais poderá ter chuvas com raios, rajadas de vento e até mesmo chuva de granizo, principalmente na noite de terça e na noite de quarta-feira”, afirmou. De acordo com o especialista, as áreas mais sujeitas às tempestades inicialmente são o Sul de Minas, Oeste, Triângulo Mineiro, Zona da Mata e região Central. O sistema deve avançar posteriormente para outras regiões do Estado, com previsão de chuva entre quinta-feira (24/9) e sexta-feira (25/9). Ruibran também projeta um cenário de temperaturas elevadas para o fim da primavera. Segundo ele, a atuação do El Niño deve contribuir para períodos de calor intenso em Minas Gerais, especialmente entre novembro e dezembro. A previsão do especialista reforça a necessidade de atenção dos produtores rurais, principalmente em áreas onde as lavouras já foram atingidas pelo granizo. Para a agricultura, a combinação entre calor, irregularidade das chuvas e episódios de tempestades pode aumentar os riscos durante uma fase importante do calendário agrícola.

