O Ibovespa recuou 13, 88% nesta segunda-feira (26) após a reeleição de Lula. A queda de R$ 734 bilhões em valor de mercado foi a maior desde 2020. O recuo refletiu a frustração de investidores que esperavam um governo de centro-direita. Cerca de R$ 21, 5 bilhões foram retirados da bolsa em outubro. Especialistas alertam que a queda de preços não significa oportunidade de compra. A decisão de investir exige avaliar os resultados e as dívidas das empresas. O BTG Pactual recomenda cautela e prioriza exportadoras como Vale e Embraer. Empresas defensivas, menos endividadas, Petrobras e Itaú também são apontadas como boas opções. Para o Goldman Sachs, as contas públicas continuam sendo o principal foco. O mercado aguarda sinalizações econômicas e a escolha do novo ministro da Fazenda. A forte queda da bolsa brasileira após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta segunda-feira (26), levantou uma dúvida entre investidores: é hora de aproveitar os preços mais baixos para comprar ações ou esperar que o mercado se estabilize? O Ibovespa recuou 13, 88%, aos 176. 608 pontos, registrando a maior queda diária desde março de 2020, no início da pandemia de Covid-19. No dia 20 daquele mês, o índice caiu 13, 92%. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g 1 Com a queda desta segunda-feira, a bolsa brasileira perdeu R$ 734 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da Elos Ayta. O montante equivale a quase todo o valor de mercado da Petrobras, estimado em R$ 746 bilhões. 👉 A reação refletiu a surpresa de parte dos investidores com o resultado eleitoral. Quem esperava uma transição para um governo de centro-direita passou a rever suas estratégias diante das incertezas sobre a condução da economia, os gastos públicos e o controle da dívida do governo. A queda dos preços, porém, não significa que todas as ações estejam baratas nem que seja o momento ideal para comprá-las. Segundo especialistas consultados pelo g 1, a decisão depende das condições de cada empresa, de sua capacidade de gerar resultados e do tamanho de suas dívidas. Queda não significa que todas as ações estão baratas Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, ressalta que a queda no preço das ações não significa, necessariamente, que uma empresa perdeu capacidade de gerar resultados. Para avaliar se um papel está barato, é preciso comparar seu preço de mercado com os resultados que a companhia pode alcançar. "Uma queda de 10% tampouco significa que as empresas perderam, de um dia para o outro, 10% de sua capacidade de gerar resultados. Significa que os investidores passaram a aceitar preços menores diante dos riscos percebidos.” Segundo ela, em um cenário econômico mais incerto, os investidores passam a exigir uma compensação maior pelo risco de aplicar seu dinheiro. 👉 Por isso, uma ação que ficou mais barata pode representar uma oportunidade de compra se a empresa mantiver boas perspectivas de resultados. Se a expectativa de lucro piorar ou o custo para financiar as atividades aumentar, porém, a queda do preço pode não ser suficiente para tornar o papel atrativo. Essa ressalva também aparece na análise da Vault Research, que atribui parte da queda à reversão das apostas de investidores em uma transição para um governo de centro-direita. Segundo a corretora, cerca de US$ 4 bilhões (R$ 21, 5 bilhões) haviam entrado na bolsa em outubro com essa expectativa. Com a reeleição de Lula, esses investidores passaram a desfazer suas posições, pressionando os preços das ações. Para a Vault, no entanto, a reação ao resultado eleitoral não explica todos os riscos envolvidos. Os analistas também apontam problemas na situação fiscal do país, na inflação e na saúde financeira das empresas, fatores que podem comprometer os resultados dos negócios. “Mesmo depois do tombo, o Ibovespa segue cerca de 9% acima do início do ano, com fiscal, inflação e balanço das empresas piores. Pode haver alívio pontual, mas a direção é de queda.”Exportadoras e empresas defensivas entram no radar Diante dos riscos para a bolsa, o BTG Pactual recomenda cautela na escolha das ações. O banco alerta para a possibilidade de novas perdas, em meio à alta dos juros de longo prazo, e prioriza empresas que recebem parte de suas receitas em moeda estrangeira, têm menos dívidas ou atuam em setores menos sensíveis às oscilações da economia. "As perspectivas de um real mais fraco podem favorecer as ações de exportadoras, como as produtoras de commodities metálicas, petróleo e gás, commodities agrícolas e exportadoras industriais”, dizem os analistas. Entre as exportadoras citadas pelo BTG estão Gerdau, Suzano, Vale, PRIO, SLC Agrícola, 3 Tentos, São Martinho, WEG e Embraer. Algumas delas estiveram entre as poucas ações do Ibovespa que fecharam em alta nesta segunda-feira. (veja mais abaixo) 🔎 Isso ocorre porque a alta do dólar pode elevar, em reais, o valor das receitas obtidas com vendas ao exterior. O efeito sobre os resultados, porém, depende dos custos, das dívidas e da exposição cambial de cada empresa. Além das exportadoras, o BTG destaca empresas menos endividadas e com maior capacidade de enfrentar períodos de juros elevados. São as chamadas “ações defensivas”, que, segundo os analistas, tendem a apresentar desempenho relativamente melhor nesse cenário. “Empresas com balanços fortes (baixa alavancagem ou posição de caixa líquido) e que atuam em setores defensivos também devem se sair relativamente bem. Seguradoras como Caixa Seguridade e Porto Seguro e a fabricante de bebidas Ambev devem apresentar desempenho superior.” O banco também destaca a Petrobras e o Itaú Unibanco entre as grandes empresas da bolsa. No caso da estatal, a exposição ao petróleo, a proteção cambial e a distribuição de dividendos são apontadas como fatores favoráveis. Já o Itaú é considerado pelo BTG o grande banco mais bem preparado para enfrentar cenários econômicos adversos. Juros altos e incerteza fiscal aumentam os riscos para a bolsa Para avaliar se a queda das ações representa uma oportunidade de compra, também é preciso considerar a capacidade das empresas de enfrentar um período prolongado de juros elevados. Além de encarecer novos empréstimos, esse cenário dificulta o pagamento de dívidas já existentes e pode limitar os recursos disponíveis para investimentos e expansão dos negócios. 🔎 Os dados sobre a situação financeira das empresas ajudam a dimensionar esse risco: em 2025, o Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial, que envolveram 2. 466 empresas. O número de CNPJs foi o maior da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2012. Em agosto de 2026, dado mais recente disponível, o país tinha 9, 3 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 244, 4 bilhões em dívidas negativadas. Os riscos para a bolsa, porém, não se limitam à situação financeira das companhias. O desempenho do mercado também dependerá das expectativas sobre as contas públicas e das decisões do governo para a economia. Para o Goldman Sachs, a situação fiscal continuará sendo o principal fator considerado pelos investidores na avaliação do risco brasileiro. Segundo Alberto Ramos, chefe da equipe de Pesquisa Econômica para a América Latina da divisão de Pesquisa de Investimentos Globais do banco, a reação dos mercados após o resultado eleitoral dependerá dos sinais do governo sobre a política econômica. Entre os pontos de atenção estão a escolha do ministro da Fazenda e a apresentação de um plano mais claro para equilibrar as contas públicas nos próximos quatro anos. A composição do Congresso também pode dificultar a aprovação de medidas econômicas. O Partido Liberal (PL) tem a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e 29 senadores no Senado. Para Ramos, essa configuração pode ampliar os obstáculos à articulação política do governo Lula. “Dada a composição mais à direita do Congresso, o presidente Lula provavelmente enfrentará desafios ainda maiores do que no mandato atual por conta do bloco de oposição conservadora maior e pelo fato de seu capital político ser limitado, visto que não poderá buscar a reeleição em 2030”, argumenta Ramos.
É hora de comprar ações? Veja o que avaliar após o tombo do Ibovespa
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