Choque cultural reverso: os desafios de quem volta ao Brasil após anos no exterior

Choque cultural reverso: os desafios de quem volta ao Brasil após anos no exterior

Mais de 5 milhões de brasileiros moram no exterior, segundo os últimos dados disponibilizados pelo governo brasileiro. Um levantamento feito pelo Itamaraty, referente ao ano passado, mostra que 5, 29 milhões de cidadãos do Brasil estão registrados em consulados no exterior - mais de 2 milhões apenas nos Estados Unidos.

No entanto, o número pode ser muito maior, já que a matrícula consular não é obrigatória. Não dá dados contabilizados pelo governo sobre a quantidade de brasileiros que retornaram ao país após viver no exterior, mas o endurecimento das políticas de imigração dos EUA e de vários países da Europa tem trazido muitos de volta ao nosso país.

✅ Siga o canal de notícias internacionais do g 1 no WhatsApp E esse retorno após anos morando fora nem sempre é fácil, causando muitas vezes algo que é descrito como choque cultural reverso, uma sensação de estranhamento em relação ao próprio país. O g 1 ouviu relatos de brasileiros que contaram o que sentiram ao retornar ao Brasil depois de muitos anos vivendo fora.

Luciana de Lima Marçal, de 50 anos, que morou no exterior de maio de 2017 até junho de 2026, saiu do Brasil em busca de mais segurança para os filhos, que tinham 4 e 9 anos. Primeiro foi para Lisboa, em Portugal, e, em 2021, se mudou para a Flórida, nos EUA. Há três meses de volta a São Paulo, ela diz que se assustou com os preços altos que encontrou ao retornar e conta que ainda não se adaptou, por exemplo, ao trânsito caótico da cidade: "A volta para o Brasil foi muito pensada.

Depois de tantos anos fora, sentimos que era o momento de voltar e estar novamente perto das nossas raízes e da nossa família. (...) O que mais me assustou ao voltar, sem dúvida, foi o custo de vida. Fiquei muito surpresa com o preço das coisas no Brasil. E outro choque foi o trânsito, a sensação de falta de respeito e educação.

Ainda não consegui voltar a dirigir. (...) Eu sabia que seria uma readaptação. O que eu não imaginava era o quanto algumas situações do cotidiano iriam me impactar depois de tantos anos vivendo fora". Lucas Turano, que é funcionário do BNDES e está licenciado do banco para passar um período se especializando em cursos no exterior, morou com a mulher por 1 ano e meio em Sevilha e, após três meses no Brasil, resolveu voltar para a Europa para mais 1 ano em Malta.

"A volta pro Brasil foi bem estranha, pra ser sincero. Foi uma mistura de sentimentos porque já não sentíamos mais tanto o Brasil como nossa casa. Muita coisa tinha mudado, desde espaços físicos até relações de amizades e familiares. Eu ainda tenho vontade de voltar a morar no meu país, mas não ainda.

A sensação de pertencimento foi uma das coisas mais desafiadoras e levamos isso para terapia", conta. Maria Julia Moreira, pernambucana de Recife que faz faculdade na Espanha há 2 anos, segue fazendo visitas à família durante as férias, mas mesmo assim percebe que já não se sente tão à vontade no próprio país, principalmente em relação à segurança: "Aqui eu ando na rua sozinha, mesmo de madrugada, com o celular na mão e tranquila.

Quando eu volto, não importa o fato de eu morar no melhor bairro da minha cidade e se está de dia, eu ando com medo. Sempre foi assim, mas é um impacto você se reacostumar com isso". O influenciador Lucas Estevam, que já visitou mais de 95 países e também morou fora - na Alemanha por 1 ano e 3 meses, no Canadá por 1 ano, e em Buenos Aires por 3 meses - diz que esse "choque" ao retornar é mais comum do que se imagina, mas destaca que todos os lugares têm seus problemas.

"Você passa meses vivendo em outro ritmo, acostumado com outra dinâmica. Aí, na hora que você pisa de volta no Brasil, parece que colocaram uma lente nova no seu olho. Dá aquela sensação louca de que você é quase que um gringo na sua própria terra. Porque o Brasil continuou exatamente no mesmo lugar, mas a sua cabeça expandiu cinco vezes de tamanho.

(...) Ao mesmo tempo posso garantir: todo lugar tem perrengue feio, burocracia pesada e solidão", afirma.

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