Os americanos vão escolher nesta terça-feira (3) um novo Congresso. A eleição vai determinar os rumos do mandato do presidente Donald Trump. É que o cenário de maioria do Partido Republicano na Câmara e no Senado pode mudar. Os correspondentes Nilson Klava e Alex Carvalho acompanharam a votação em um dos estados que podem selar o resultado dessa eleição. "Nós estamos falando diretamente do Michigan, um dos estados decisivos dessa eleição. Uma eleição na qual, historicamente, o presidente no comando costuma perder cadeiras na Câmara dos Deputados. Isso porque ela funciona praticamente como uma espécie de plebiscito sobre o governo. É a chance dos eleitores dizerem se satisfeitos ou se estão insatisfeitos. E no caso de Donald Trump, a última pesquisa, divulgada ainda hoje, mostrou que apenas 32% dos americanos aprovam a gestão dele. E não é só a maioria na Câmara de Trump que está em jogo aqui não. É, também, a maioria do Senado que está em risco. Para a oposição conseguir agora tirar a maioria dele, vai precisar, primeiro, manter aquilo que já tem, como é o caso aqui do Michigan, e avançar também sobre outras quatro cadeiras no Senado. É o que os democratas estão tentando fazer nos estados que nós vamos mostrar agora aqui para vocês. Estados como Iowa, Texas, Alaska, Ohio, Kansas e Maine. Em praticamente todos esses estados, com exceção do Maine, Trump venceu na última eleição. Mas a guerra no Irã , as tarifas fizeram com que muitos desses eleitores mudassem de opinião. É o que eu, Alex Carvalho e Carol Matzenbacher mostramos ao longo dessa viagem. O que está em jogo aqui é se a oposição vai ter a maioria no Congresso. E, tendo a maioria, se vai ter mais instrumentos, por exemplo, para barrar medidas do presidente. Além disso, se vai ter também mais poder de fiscalizar o governo. O que está em jogo é muito importante e ajuda a entender o tamanho do investimento das campanhas nessa eleição. É o que a gente vai mostrar no último episódio da série 'Poder à Prova'", diz o correspondente Nilson Klava. 📱Favorite o g 1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Nunca se gastou tanto em uma campanha para o Congresso na história dos Estados Unidos. O desembolso total com propaganda pode chegar a quase US$ 12 bilhões até o dia da votação. Seria mais do que foi gasto na eleição presidencial de 2024. Daria para pagar também uns 150 lançamentos de um foguete. O dono do foguete é também o maior doador dessa campanha. Elon Musk, sozinho, já doou quase US$ 450 milhões de dólares. Um símbolo do quanto a maioria no Congresso importa para democratas e republicanos - e seus aliados. “Como são apenas dois partidos, quando o presidente não tem a maioria, não é como no Brasil, que se vai montar uma coalizão de governo. Quando você não tem a maioria, você tem um Congresso que frequentemente é hostil. Nos primeiros dois anos do segundo Trump, ele teve o conforto de governar com uma maioria apertada”, diz Cesar Zucco, professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia. É essa maioria que está ameaçada agora. No fim das contas, todos os eleitores que nós mostramos ao longo da série no Jornal Nacional estão preocupados com uma coisa. “Muita gente aqui vota primeiro pensando no bolso”, conta Phil. Essa eleição virou um plebiscito sobre o governo. Com a aprovação mais baixa em toda a sua trajetória política, Trump tentou de tudo, inclusive alterar as regras do processo eleitoral - controladas pelos estados. Foi assim com tentativas de restringir o voto pelos Correios - uma opção preferida tradicionalmente por quem vota no Partido Democrata, de oposição. Dentro dos estados, políticos do Partido Republicano redesenharam os distritos eleitorais, como explicamos na reportagem de sábado (31). O presidente chegou a dizer que vai dar US$ 5 mil para cada cidadão americano se os republicanos mantiverem a maioria nas duas Casas. “Além disso, a gente vai ter uma batalha política na certificação do resultado, tanto nas assembleias como aqui em Washington, na certificação final. Então, esse processo vai ser um processo muito duro, muito batalhado, muito judicializado”, afirma Mauricio Moura, economista e professor da Universidade George Washington. Nesses dois anos de mandato, Trump aproveitou o apoio que conseguiu nos outros Poderes. “Os resultados da eleição em que o Trump foi eleito presidente deram a ele o controle do Senado, o equivalente à Câmara de Deputados. E ele já tinha, por razões históricas de nomeação, uma Suprema Corte muito simpática a ele. Então, você estava no que se chamou a tempestade perfeita. Ele tinha todos os poderes”, afirma José Scheinkman, economista e professor da Universidade Columbia. E usou isso para avançar sobre atribuições que a Constituição dá ao Congresso, como imposição de tarifas e declaração de guerra. Nos Estados Unidos, esse movimento do Executivo de ampliar os poderes sobre o Legislativo é bem diferente do que ocorre no Brasil, por exemplo. “Está tendo uma repactuação do papel de cada Poder - Executivo, Legislativo e Judiciário - nos dois países em direções opostas. O Brasil era um caso, comparado aos Estados Unidos, é um caso onde o presidente tinha muito mais atribuições e mais poder do que o presidente americano, maior poder sobre burocracia e maior poder sobre Orçamento, maior poder de emitir decretos com força de leis, medidas provisórias. Isso, ao longo dos últimos 20 anos, gradativamente no Brasil, vem diminuindo em várias etapas diferentes e chega em um ponto, hoje, onde o Congresso tem mais atribuição orçamentária, muito mais do que tinha. E o contrário aconteceu nos Estados Unidos”, explica Cesar Zucco. No Congresso americano, Trump não enfrentou muita resistência. A saída encontrada pela oposição foi questionar as medidas na Suprema Corte. “A Suprema Corte tem imposto um freio lento e seletivo no governo Trump. Ela barra algumas medidas mais ousadas do governo Trump. Em outros vários temas, a Suprema Corte, na verdade, tem expandido os poderes do presidente”, diz Gustavo Ribeiro, professor de Direito American University. Trump tem testado, constantemente, os limites dos poderes presidenciais e colocado em xeque o sistema de freios e contrapesos - previsto na Constituição americana para manter um equilíbrio entre os Três Poderes. “Era uma Constituição muito genérica, diferente das Constituições das Américas, como a do Brasil, muito detalhista. E, por incrível que pareça, é a falta de detalhes que está fazendo com que Donald Trump opere em uma região cinzenta em diversos temas”, afirma Mauricio Moura. A eleição é para deputado e senador, mas o grande impactado mora na Casa Branca: o presidente dos Estados Unidos. A eleição que vai definir se Donald Trump mantém a maioria favorável de parlamentares no Congresso vai funcionar também como um termômetro para a próxima eleição, daqui a dois anos. A disputa vai colocar democratas e republicanos em uma espécie de divã. Quem vai liderar o Partido Republicano depois de dois mandatos de Donald Trump? A ala mais tradicional ou a ala trumpista? E qual caminho deve tomar a oposição democrata se quiser voltar para a Casa Branca? Mais à esquerda ou mais ao centro? Os dois partidos passam por uma transformação. “Essa transformação não é de agora. Acho que o elemento central de transformação foi Donald Trump. O eleitorado que o Donald Trump trouxe para o partido é um eleitorado muito mais popular, muito mais de baixa renda, baixa escolaridade, concentrado nas cidades pequenas e médias. Isso fez com que o Partido Democrata, de alguma maneira, ficasse isolado às grandes regiões metropolitanas, às regiões com mais escolaridade, às pessoas com maior renda”, diz Mauricio Moura. O rumo dessa disputa, as urnas é que vão dizer. Há muito mais por trás das eleições que colocarão o poder do presidente à prova. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Jornal Nacional LEIA TAMBÉM 'Poder à Prova': alta do custo de vida é uma das principais preocupações do eleitor americano‘Poder à Prova’: JN vai ao Texas para mostrar como a imigração e a inteligência artificial têm mobilizado o eleitor americanoDemocratas querem aproveitar desgaste de Trump para conseguir maioria na Câmara e no SenadoJornal Nacional viaja por estados que serão decisivos na eleição do novo Congresso americanoEleições de meio de mandato nos EUA: quando serão as midterms?
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