Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia lançaram a iniciativa "Parceiros pelo Multilateralismo" neste domingo (20). O movimento defende reformas globais em manifesto conjunto. A aliança justifica a medida citando a fragmentação global. Em 2025, foram registrados 65 conflitos entre Estados e os gastos militares mundiais atingiram US$ 2, 9 trilhões.
O debate da Assembleia Geral da ONU começará nesta terça-feira (22). O presidente Lula discursará na abertura do evento, seguido pelo presidente americano Donald Trump. Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia lançaram uma iniciativa em defesa do multilateralismo.
O movimento diplomático, batizado de "Parceiros pelo Multilateralismo" (P 4 M), foi anunciado neste domingo (20) por meio da publicação de um manifesto conjunto no jornal britânico Financial Times. 🔎 O documento é assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, e pelo presidente queniano, William Ruto.
O grupo propõe a criação de uma estrutura “flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas”.
O objetivo principal da aliança é formar coalizões capazes de apoiar reformas na ONU e tornar as instituições globais mais representativas, sem criar uma burocracia exclusiva. As lideranças justificam a medida diante da atual fragmentação e da polarização global.
O manifesto destaca, por exemplo, que 65 conflitos armados entre Estados foram registrados em 2025 — a maior quantidade de confrontos documentada desde 1946. Além disso, os signatários apontam que os gastos militares globais também bateram recorde e chegaram a US$ 2, 9 trilhões.
“O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles”.
Para reverter esse quadro, a iniciativa P 4 M busca articular respostas conjuntas a desafios urgentes e complexos, como inteligência artificial, mudanças climáticas, pandemias e choques financeiros. Os líderes afirmam expressamente que nenhum país tem poder suficiente para enfrentar esses obstáculos de forma isolada e que a “necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva”.
Crise na ONU e embate diplomático O lançamento da frente diplomática coincide com a maior crise da história da ONU. A organização internacional enfrenta fortes restrições financeiras e grandes dificuldades para solucionar os conflitos atuais. Há, ainda, um impasse no Conselho de Segurança sobre a escolha do próximo secretário-geral, a apenas três meses do fim do mandato de António Guterres.
É neste cenário de incertezas que o debate geral da Assembleia Geral da ONU começa oficialmente na terça-feira (22). O presidente Lula fará o tradicional discurso de abertura do evento, e a expectativa é que ele aproveite o palanque para defender o multilateralismo e a cooperação internacional.
Logo na sequência, discursará o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A fala do líder americano é aguardada com tensão, pois acontecerá em meio a reportagens do The Wall Street Journal apontando que sua administração estaria preparando sanções contra o Tribunal Penal Internacional.
Esse contraste no palco principal da ONU evidenciará o choque direto entre a defesa da cooperação coletiva, proposta pela P 4 M, e o discurso de zonas de influência dos americanos. Diante desse panorama desafiador, o manifesto conjunto encerra o texto com um apelo direto aos líderes mundiais.
O documento ressalta que a verdadeira escolha da atualidade é entre renovar a cooperação multilateral ou ceder à polarização, pedindo que o mundo opte pelo direito e pela responsabilidade compartilhada em vez de aceitar a fragmentação. Leia o manifesto na íntegra, publicado por Lula em seu perfil do X (antigo Twitter): À medida que os líderes mundiais seguem para a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta semana, nos deparamos com um paradoxo.
A comunidade internacional está mais interdependente do que nunca, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais fragmentada e polarizada. Nossas economias estão profundamente interligadas. A tecnologia conecta bilhões de pessoas para além das fronteiras nacionais, enquanto capital, bens, dados e ideias circulam em velocidades que seriam inimagináveis quando as Nações Unidas foram fundadas, em 1945.
O comércio global atingiu o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado, e seis bilhões de pessoas – quase três quartos da humanidade – estão conectadas à internet. No entanto, a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2, 9 trilhões.
O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles.
Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva.
O mundo do pós-guerra há muito ficou para trás, mas a lógica fundamental que justificou a cooperação multilateral é mais evidente do que nunca. A emergência climática está superando até mesmo as previsões mais alarmantes. A inteligência artificial avança mais rapidamente do que nossa capacidade de controlá-la.
Pandemias podem se espalhar por continentes em questão de semanas, e choques financeiros podem abalar os mercados em poucas horas. Conflitos armados podem desestabilizar regiões inteiras e obrigar milhões de pessoas a fugir de suas casas. Pontos de estrangulamento das rotas marítimas globais, como o Estreito de Ormuz, quando afetados por conflitos, podem paralisar cadeias de abastecimento em todo o mundo.
Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo.
É nesse contexto que nos unimos em torno de uma nova iniciativa: “Parceiros pelo Multilateralismo” (P 4 M, na sigla em inglês). A P 4 M não pretende criar mais um bloco exclusivo nem outra burocracia internacional. Seu propósito é justamente o oposto: oferecer uma estrutura flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas.
A P 4 M apoiará a reforma das Nações Unidas e de outras instituições multilaterais, para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios contemporâneos, da inteligência artificial e das mudanças do clima à segurança sanitária e à transformação digital.
A P 4 M buscará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não o substituir, além de construir pontes e aproximar países que podem discordar em muitas questões, mas que compartilham o compromisso com os princípios básicos consagrados na Carta da ONU. São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente que "as superpotências estão descobrindo seus limites". Acreditamos que a comunidade internacional precisa redescobrir o extraordinário potencial da ação coletiva. A competição não precisa se transformar em confronto se criarmos canais de diálogo e cooperação.
A soberania é fortalecida, e não diminuída, quando os países trabalham juntos para enfrentar desafios comuns. A promoção dos interesses nacionais muitas vezes passa pela ação coletiva diante de desafios compartilhados. A verdadeira escolha não é entre preservar a ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial ou abandoná-la.
É entre renovar a cooperação multilateral em um mundo em transformação ou permitir que a fragmentação, a polarização e a política de poder definam a próxima era. Diante de uma ordem mundial que se transforma rapidamente, conclamamos líderes de todo o mundo a se juntarem a nós na iniciativa P 4 M, optando pela cooperação em vez da fragmentação, pelo direito em vez do poder e pela responsabilidade compartilhada em vez da divisão.

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