O plano era atacar na noite de Natal de 1815. Enquanto a população se prepararia para as celebrações, africanos escravizados de maioria muçulmana se reuniriam. Os tambores soariam mais fortes e a ordem colonial seria enfrentada. Há meses eles articulavam uma revolta que envolvia distribuição de armas, contatos com quilombolas e a expectativa de conquistar a liberdade. Nos últimos meses daquele ano, a tensão dominava as autoridades locais, que solicitaram ajuda do Exército para sufocar a conspiração.
O episódio é um dos três movimentos analisados pelo historiador Danilo Luiz Marques no artigo “Malês, Cabanos e Marimbondos: histórias da resistência negra em Alagoas (1815-1852) ”, publicado na Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, em 2024. O objetivo é investigar as formas de resistência à escravidão em Alagoas na primeira metade do século XIX, deslocando o foco da atuação das autoridades para as experiências dos escravizados e suas relações com libertos, indígenas e livres pobres.
Para Marques, as revoltas não podem ser entendidas apenas como episódios isolados de violência contra a ordem. Elas expressavam diferentes estratégias de busca pela liberdade, que iam da organização de insurreições e formação de quilombos à participação em guerras populares e à resistência contra medidas do Estado.
A conspiração de 1815 mostra a importância das redes de sociabilidade negra. Batuques, festas e reuniões religiosas não eram apenas manifestações culturais: podiam funcionar como espaços de comunicação, organização e planejamento. Os revoltosos mantinham conexões com quilombos, entre eles o localizado na Gruta do Mija Cachorro. A repressão foi severa. Vinte e três acusados foram condenados no processo iniciado em 1816. O escravizado Joaquim, um dos líderes, foi executado e teve a cabeça exposta publicamente.
Duas décadas depois, a Guerra dos Cabanos (1832-1835) assumiria dimensões ainda maiores. Marques questiona a interpretação historiográfica que reduziu a Cabanada a uma revolta restauradora, vinculada exclusivamente à defesa do retorno de D. Pedro I. Para o autor, escravizados fugitivos, indígenas e pobres livres incorporaram ao conflito suas próprias reivindicações, especialmente a liberdade e o acesso à terra.
A partir de 1834, o movimento ganhou uma dimensão ainda mais popular sob a liderança de Vicente Ferreira de Paula, conhecido como “Guarda Negra” ou “capitão de todas as matas”. Nas regiões próximas ao antigo território de Palmares, os rebeldes utilizaram a guerrilha e estabeleceram arraiais, de onde realizavam incursões contra engenhos, libertavam escravizados e buscavam alimentos e armas.
A repressão imperial procurou destruir as bases materiais da resistência. A estratégia de “terra arrasada” incluía a destruição de plantações para provocar fome entre os insurgentes. Segundo os dados apresentados no artigo, entre março e maio de 1835, mais de mil cabanos foram presos e 2. 326 foram mortos. Mesmo assim, grupos permaneceram nas matas e continuaram resistindo.
O terceiro episódio ocorreu entre 1851 e 1852, quando os chamados Marimbondos se levantaram contra os decretos imperiais que criavam o Censo Geral e o Registro de Nascimentos e Óbitos. Para a população negra livre e liberta, as medidas despertaram o temor de uma tentativa de controlar sua documentação e, posteriormente, promover sua reescravização. Por isso, ficaram conhecidas popularmente como “Lei do Cativeiro”.
A reação foi espalhada por diversas localidades alagoanas. Multidões rasgavam editais, impediam a leitura dos decretos nas igrejas, atacavam cartórios e perseguiam funcionários responsáveis pelos registros. A mobilização ganhou características de ação coletiva descentralizada, comparada pelo próprio nome do movimento ao comportamento de um enxame de marimbondos.
Diante da dimensão dos protestos e da dificuldade de mobilizar forças para reprimi-los nas áreas rurais, o governo imperial suspendeu os decretos em janeiro de 1852.
A conclusão de Marques é que a resistência negra em Alagoas não se limitou às grandes insurreições escravas. Quilombos, guerras populares, revoltas urbanas, práticas culturais e enfrentamentos às políticas do Estado formavam um repertório contínuo de resistência à dominação senhorial. Em diferentes contextos, africanos e seus descendentes demonstraram capacidade de organização política e construção de alianças, mantendo a liberdade como uma pauta central de suas ações.

