Quem convive com gatos provavelmente já viu a cena em que o animal se acomoda sobre uma manta, almofada ou no próprio colo e começa a pressioná-la alternadamente com as patas dianteiras. Conhecido popularmente como “amassar pãozinho”, o movimento é comum entre os felinos e tem origem nos primeiros momentos de vida.
O comportamento aparece durante a amamentação, quando os filhotes pressionam alternadamente as patas sobre a região mamária da mãe. Segundo a bióloga, comunicadora telepática animal e terapeuta integrativa Daniela Gil, trata-se de um comportamento que possui uma origem instintiva, mas que não permanece necessariamente com a mesma função ao longo da vida.
“Um comportamento que surgiu num contexto de alimentação, calor, proximidade física e proteção para o animal, pode continuar sendo manifestado em situações que, para o tutor, representam conforto e segurança”, explica.
Em alguns gatos , a referência à experiência materna se revela de maneira muito presente. Já em outros, o comportamento pode estar mais relacionado à segurança que o animal sente pela pessoa.
O veterinário Igor Zimovski, diretor da Clínica Veterinária do Centro Universitário UNICEPLAC, destaca que existe um componente inato, mas a experiência e o aprendizado ao longo da vida também podem influenciar a frequência e o contexto em que o gato realiza o movimento. Leia também É o bicho! Perfume em cães e gatos: os cuidados para não agredir a saúde dos pets É o bicho! Mitos sobre saúde de gatos sem raça prejudicam a rotina dos pets É o bicho! Gatos amam brincar com caixas e até barbante, mas veterinária faz alerta É o bicho! O que fazer em casa para combater o estresse e a obesidade em gatos Um comportamento que pode durar a vida toda
Não há uma idade determinada para o “amassar pãozinho” desaparecer.Muitos gatos mantêm o comportamento durante toda a vida , enquanto outros o fazem apenas ocasionalmente ou praticamente nunca.
A diferença entre os animais não significa, necessariamente, que exista algo errado. Personalidade, experiências individuais e o ambiente podem influenciar a frequência do comportamento.
Por isso, também não é correto concluir que um gato que realiza o movimento com frequência teve uma relação melhor com a mãe. Daniela alerta que a frequência não deve ser usada como indicador de desmame precoce nem da qualidade da experiência materna. É uma demonstração de amor?
Quando o movimento acontece no colo do tutor, é comum interpretá-lo como uma demonstração de carinho. Embora possa ocorrer durante interações positivas, os especialistas recomendam cautela com essa leitura.
“Eu evitaria a tradução simplista de que “amassar pãozinho” significa que ele está dizendo que ama você. Pode haver afeto e vínculo, evidentemente, mas o comportamento animal é muito mais rico do que uma legenda”, diz Daniela.
Para Igor, quando o gato está relaxado, ronronando e apresenta postura corporal tranquila, o comportamento provavelmente está relacionado a conforto e segurança. Ainda assim, o significado depende do contexto.
“Não existe uma única explicação. O mais correto cientificamente é dizer que ele está associado, em determinados contextos, a estados de conforto, segurança e interação social positiva”, afirma.
Nem sempre é sinal de felicidade
Apesar de ser frequentemente observado em momentos de relaxamento, o comportamento não deve ser interpretado isoladamente. O gato pode apresentar os movimentos associados ao conforto também diante de situações de tensão ou estresse.
Por isso, é importante observar a linguagem corporal.Pupilas muito dilatadas, orelhas para trás, corpo tenso, tentativa de fuga ou vocalizações diferentes podem indicar desconforto.
A frequência, por si só, também não é suficiente para indicar ansiedade ou algum transtorno. A preocupação surge quando o comportamento se torna excessivamente repetitivo, difícil de interromper ou interfere na alimentação, no sono, na interação social ou na exploração do ambiente.
Nesses casos, é importante procurar um veterinário para investigar possíveis causas médicas, como dor, doenças dermatológicas ou alterações neurológicas. E quando as unhas machucam?
Se o gato usa as garras durante o movimento e acaba arranhando o tutor, a recomendação é não puni-lo . Gritar, empurrar ou borrifar água pode gerar medo e prejudicar a relação com o animal.
Uma alternativa simples é colocar uma manta ou almofada mais espessa entre as patas e a pele. Também é possível oferecer um tecido que o gato goste de amassar e manter as unhas aparadas adequadamente.
“Não precisamos eliminar um comportamento normal para evitar o desconforto, podemos modificar o contexto e oferecer uma alternativa adequada”, orienta Igor.
Assim, o “amassar pãozinho” pode ser entendido como um comportamento que começa no repertório neonatal, mas ganha diferentes funções e contextos ao longo da vida. Mais do que buscar uma tradução única para o gesto, especialistas recomendam observar o animal como um indivíduo, levando em conta seu ambiente, sua rotina e as mudanças em seu comportamento.

