Zuenir Ventura, o amigo que sempre me devolveu ao caminho

Zuenir Ventura, o amigo que sempre me devolveu ao caminho

Eu era muito jovem quando Zuenir Ventura escreveu esta dedicatória no meu exemplar de “1968 — O ano que não terminou”:

“Amigo Matheus: agora é capaz de você achar meio chato, não sei. Dê uma provada. Se não gostar, não se grila: para e guarda para daqui a pouco, quando você for mais rapazinho. Aí, então, acho, essa aventura pode ser útil para você e sua geração. Até lá, um abraço.”

Era 18 de outubro de 1988. Eu tinha 11 anos, mas conhecia Zuenir desde os seis. A verdade é que aquela dedicatória não ficou apenas no livro. Zuenir passou a vida me ajudando a compreender o mundo e a encontrar o meu próprio caminho dentro dele.

Havia algo de profético em suas palavras sobre a utilidade daquela aventura para mim e para a minha geração. Muitos anos depois, escrevi “Em Nome dos Pais”, também um livro sobre a ditadura. Zuenir escreveu uma resenha sobre ele para O Globo e deixou na contracapa uma frase que guardarei para sempre: “Indispensável. Ensina que pode se perdoar, mesmo sendo difícil, mas esquecer jamais.”

Na adolescência, andávamos de bicicleta pela zona norte do Rio de Janeiro. Eu tinha todas as dúvidas que um adolescente costuma ter. Quando me perdi, sem saber direito para onde seguir, ele me colocou de volta no rumo. E assim foi durante toda a minha vida.

Todas as vezes em que eu me sentia fora do trilho, Zuenir encontrava uma maneira de me ajudar a voltar. Às vezes, saíamos para comer. Em outras, marcávamos uma ligação, nos encontrávamos em alguma festa ou trocávamos e-mails. Até dois anos atrás, ele ainda me escrevia quando eu tinha alguma dúvida e me aconselhava.

Foi linda a festa de seus 93 anos, da qual tive o privilégio de participar, abraçá-lo, beijá-lo e ouvir mais conselhos.

Zuenir foi essa pessoa na minha vida: alguém que, com sua sabedoria, sua delicadeza e seu afeto, sempre me ajudou a reencontrar o caminho.

É muito duro perder alguém assim. Muito duro perder quem tantas vezes nos encontrou quando éramos nós que estávamos perdidos. A verdade é que Zuenir Ventura foi o amigo que sempre me devolveu ao caminho.

Vou sentir muito a sua falta. E não sei como vou me achar se me perder de novo.

Adeus, Zu.

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