Apresentadas pelo governo de Donald Trump como uma forma de proteger a indústria americana, as tarifas impostas pelos Estados Unidos a diversos países também tiveram um efeito contrário ao pretendido: encareceram os produtos para os consumidores do país. Até fevereiro de 2026, as tarifas acrescentaram 2, 9 pontos percentuais à inflação dos produtos comprados pelos americanos, segundo estudo do Federal Reserve de Nova York divulgado nesta semana.
🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g 1 O levantamento também estimou que a tarifa global de 10% sobre todos os produtos importados, anunciada em fevereiro deste ano, elevaria os preços ao consumidor em 2, 6% em um período de um ano. No Brasil, as medidas comerciais anunciadas pelo governo Trump em julho estabeleceram sobretaxas de 12, 5% a 25% para diferentes grupos de produtos.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as duas medidas alcançam, juntas, 23, 1% das exportações brasileiras para os EUA. Desse total, 16, 5% estão sujeitos à sobretaxa acumulada de 37, 5%. O impacto, porém, varia bastante de acordo com o setor.
🤔 Mas o que isso significa para o cidadão brasileiro? Economistas e representantes do setor afirmam que, no curto prazo, o principal efeito não deve aparecer na etiqueta dos produtos, mas na atividade das empresas e no emprego. Calçados: setor teme impacto sobre o emprego O setor calçadista está entre os mais expostos às novas tarifas americanas.
Os EUA são um dos principais destinos dos calçados brasileiros, e as exportações já vinham recuando antes mesmo da entrada em vigor das novas medidas. Entre janeiro e agosto, o Brasil exportou 62, 45 milhões de pares de calçados, que renderam US$ 541, 45 milhões.
Na comparação com o mesmo período de 2025, houve queda de 7, 5% no volume e de 16, 8% na receita. Segundo a Abicalçados, são os piores resultados para o período desde 2020, ano fortemente afetado pela pandemia. Apenas em agosto, foram embarcados 7, 13 milhões de pares, por US$ 70, 8 milhões, quedas de 6, 6% e 8, 1%, respectivamente.
Os EUA concentram parte importante dessa deterioração. Nos oito primeiros meses do ano, o Brasil exportou 7, 38 milhões de pares para o mercado americano, por US$ 120, 5 milhões. O volume caiu 4, 1% e a receita recuou 22, 8% ante o mesmo período de 2025. A queda da receita foi maior que a do volume.
Em agosto, o preço médio do calçado exportado aos EUA caiu 35, 4%, para US$ 17, 20, segundo a Abicalçados. A entidade atribui o movimento, entre outros fatores, à mudança no perfil dos produtos vendidos ao mercado americano e à retração das categorias de maior valor, especialmente calçados de couro.
A pressão não vem apenas dos EUA. A Argentina, segundo principal destino dos calçados brasileiros, também reduziu as compras. No acumulado até agosto, as exportações brasileiras para o país caíram 51, 6% em volume e 55, 6% em receita. Diante desse cenário, a Abicalçados estima agora uma queda de 7, 1% nas exportações brasileiras de calçados em 2026, ante previsão anterior de retração de 3, 6%.
Ao mesmo tempo, as importações de calçados avançam no mercado brasileiro. Entre janeiro e agosto, entraram no país 33 milhões de pares, alta de 9, 6% em relação ao mesmo período de 2025. O valor das importações cresceu 11%, para US$ 429, 7 milhões. China, Vietnã e Indonésia responderam por cerca de oito em cada 10 pares importados.
O movimento dificulta uma das alternativas para as empresas afetadas pelo tarifaço: vender no Brasil os produtos que deixarem de ser destinados aos EUA. Segundo Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, a indústria enfrenta uma espécie de “efeito pinça”: de um lado, a perda do mercado americano; de outro, a concorrência dos produtos importados no mercado doméstico.
“As empresas poderiam direcionar parte da produção para o mercado nacional para evitar demissões. Mas, com o avanço das importações, fica mais difícil absorver esses produtos e manter os postos de trabalho.” A entidade estima a perda de mais de 5 mil empregos diretos no segundo semestre caso as tarifas americanas sejam mantidas.
Essa é, porém, uma projeção da Abicalçados, e não um número de demissões já registrado. Os dados mais recentes da própria entidade mostram que, até julho, o setor ainda acumulava saldo positivo de 1. 740 postos de trabalho no ano, embora tenha registrado saldo negativo de 387 vagas apenas naquele mês.
Rafarillo: um exemplo de como a tarifa chega à fábrica A Rafarillo, fabricante de calçados de Franca (SP), é um exemplo de como a mudança pode afetar a operação de uma empresa. Segundo André Ferreira, representante de comércio exterior da companhia, contratos com compradores americanos precisaram ser renegociados depois do anúncio das tarifas.
A empresa também reorganizou linhas de produção e buscou fornecedores alternativos para reduzir custos. “O processo produtivo teve que ser repensado, nós tivemos que fazer algumas adequações, de repente até algumas mudanças em relação à matéria-prima, obviamente não mudando a qualidade do produto, mas buscando mais alternativas no mercado", afirmou.
Pedidos menores também passaram a ser negociados. A companhia, que atualmente tem cerca de 150 funcionários, reduziu postos de trabalho e procura novos mercados para compensar parte da perda de vendas aos EUA. A empresa também tenta ampliar as vendas para outros destinos, incluindo América Latina, Europa, África e Ásia.
Açúcar e etanol: impacto depende do produto No setor sucroenergético, os efeitos são diferentes dos observados na indústria calçadista. O açúcar brasileiro está entre os produtos sujeitos à sobretaxa adicional de 25% prevista na medida específica para o Brasil.
Já o etanol está no centro de uma disputa comercial mais ampla entre os dois países. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a política brasileira para biocombustíveis é aplicada de forma não discriminatória e segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A entidade também contesta a avaliação americana de que o Brasil deveria oferecer tratamento tarifário preferencial ao etanol produzido nos EUA. Para o açúcar, a relação comercial já era marcada por restrições de acesso ao mercado americano, incluindo cotas tarifárias.
Assim, o novo cenário se soma a barreiras que já existiam. Para o consumidor brasileiro, entretanto, não há uma relação automática entre as novas tarifas e o preço do açúcar ou do etanol. Se ficar mais difícil vender determinado volume aos EUA, produtores podem procurar outros mercados.
Parte da produção também pode ser direcionada ao mercado brasileiro. Em tese, uma oferta maior no mercado interno pode pressionar os preços para baixo ou limitar altas. Mas isso depende de vários fatores, como o volume redirecionado, os preços internacionais, o câmbio e as condições de oferta e demanda.
Por outro lado, se as exportações caírem de maneira significativa, usinas e produtores podem reduzir receitas e investimentos. O efeito pode se espalhar para transportadoras, fornecedores e outros elos da cadeia. Máquinas: tarifa se soma a um mercado interno enfraquecido A indústria de máquinas e equipamentos enfrenta pressão tanto no mercado externo quanto no doméstico.
Os EUA estão entre os principais destinos das exportações brasileiras, enquanto o mercado interno sofre com juros elevados e baixo nível de investimentos. No primeiro semestre, o faturamento do setor caiu 13, 6% e as vendas no mercado interno recuaram 17%, segundo a Abimaq.
As exportações, por outro lado, cresceram 12, 7% no período. Para José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, a fraqueza do mercado interno é hoje o principal fator por trás das demissões no setor, com impacto maior do que o tarifaço sobre as empresas exportadoras.
O setor enfrenta um cenário de poucos investimentos no país e menor demanda por máquinas e equipamentos. Segundo Velloso, o faturamento acumula queda de cerca de 17% nos últimos quatro anos, apesar do crescimento das exportações. Alguns segmentos ligados principalmente ao mercado doméstico enfrentam retrações ainda mais fortes.
Segundo Velloso, o faturamento de máquinas agrícolas caiu 25%, enquanto o de colheitadeiras recuou 40%. O cenário, afirma, já levou ao fechamento de fábricas. “Nós temos uma crise muito importante aqui dentro. Nós temos um aumento das exportações, e isso ameniza, mas temos uma queda das exportações para os Estados Unidos", afirma.
"Essa queda é menor do que o crescimento das exportações que estamos tendo no geral. Então, a tarifa causa demissão? Causa. Mas, quando olho o total do setor, ele está tendo demissões também por causa do baixo desempenho do mercado interno, e não só por causa do tarifaço.”O efeito pode chegar a empresas que não exportam Segundo a Abimaq, os EUA compraram cerca de US$ 3, 2 bilhões em máquinas e equipamentos brasileiros em 2025.
🔍 O impacto do tarifaço, porém, pode se espalhar pela cadeia produtiva. Uma fabricante que perde pedidos de um comprador americano pode reduzir a produção e, com isso, comprar menos aço, componentes e serviços de fornecedores nacionais, além de reduzir gastos com transporte.
É o chamado efeito em cadeia. Assim, até empresas que nunca exportaram diretamente para os EUA podem sentir os efeitos da queda nas vendas de seus clientes. A Abimaq afirma ainda que a integração entre as cadeias produtivas brasileira e americana pode fazer com que o aumento de custos atinja empresas dos dois países.
Há, porém, uma dificuldade para medir o impacto sobre o emprego. Segundo Velloso, os dados não permitem separar as demissões provocadas especificamente pelo tarifaço daquelas decorrentes da fraqueza do mercado interno. Por isso, eventuais cortes de postos de trabalho não poderão ser automaticamente atribuídos às tarifas americanas.
Para o consumidor, o efeito não é uma alta automática de preços Mas, afinal, o brasileiro pode pagar mais caro por causa do tarifaço? Não necessariamente. A tarifa é cobrada sobre a entrada do produto nos EUA. Portanto, o primeiro impacto recai sobre a relação comercial entre o exportador brasileiro e o comprador americano.
O mecanismo pode funcionar de diferentes maneiras: Empresas podem perder margem Para manter contratos, exportadores brasileiros podem aceitar preços menores e absorver parte do custo adicional. Isso reduz a margem das empresas, mas não significa aumento imediato de preços no Brasil.
Parte da produção pode voltar para o mercado brasileiro Se um produto deixar de ser exportado para os EUA, a empresa pode tentar vendê-lo no mercado doméstico. Se houver aumento relevante da oferta, isso pode pressionar os preços para baixo. Empresas podem reduzir produção e emprego Quando não há mercado alternativo, a saída pode ser reduzir a produção, adiar investimentos, suspender contratações ou cortar postos de trabalho.
O câmbio pode ser um canal indireto Uma piora das perspectivas para o comércio exterior pode aumentar a percepção de risco e pressionar o real. Um dólar mais caro encarece produtos e insumos importados e pode dificultar a queda da inflação. É nesse último ponto que o tarifaço pode chegar de maneira mais ampla à economia brasileira.
O que pesa mais: tarifa ou juros? Para André Matos, CEO da MA 7 Capital, o impacto do tarifaço sobre a economia brasileira é principalmente setorial e concentrado em determinadas regiões, e não deve representar um choque de grande proporção sobre o PIB. Segundo o MDIC, os EUA representaram 10, 8% das exportações brasileiras em 2025.
No acumulado de janeiro a agosto de 2026, a participação caiu para 9, 6%. Por isso, uma queda nas vendas para o mercado americano pode atingir de forma significativa empresas e trabalhadores ligados à exportação, mesmo que o efeito sobre a economia como um todo seja limitado.
Segundo Matos, o impacto também depende da capacidade de redirecionar as exportações para outros mercados. Parte das vendas que deixaram de ir para os EUA foi absorvida por outros destinos, especialmente na Ásia. Para o economista, porém, os juros elevados representam hoje um obstáculo mais abrangente para a atividade econômica: “Se eu tiver que ordenar os freios do crescimento, juro vem primeiro, com folga, e tarifa vem depois.” O efeito da tarifa, segundo ele, também tende a ser mais lento.
Uma empresa que perde um contrato com um comprador americano pode levar anos para recuperar esse mercado, mesmo que as condições comerciais melhorem. Por que o consumidor não sente a tarifa imediatamente? Para Matos, o impacto direto sobre os preços no Brasil tende a ser limitado porque a tarifa é cobrada na entrada dos EUA e paga pelo importador americano.
Além disso, produtos que deixam de ser enviados para os EUA podem ser redirecionados para outros mercados, inclusive o brasileiro. O aumento da oferta doméstica pode, em alguns casos, pressionar os preços para baixo. “Para o consumidor, o efeito de curto prazo é neutro ou até levemente favorável.
O problema dele não é preço, é emprego, se a empresa da região dele exportava para lá.” Segundo Matos, o principal caminho para o tarifaço afetar os preços no Brasil seria indireto, pelo dólar. Se o aumento das tarifas elevar a percepção de risco sobre o Brasil, a moeda americana pode subir frente ao real.
Com o dólar mais caro, aumentam os custos de produtos e matérias-primas importados, como combustíveis e fertilizantes, o que pode pressionar a inflação. Assim, o impacto tende a aparecer primeiro nas empresas que exportam, no emprego e nos investimentos. Só depois, dependendo do comportamento do dólar, pode chegar aos preços pagos pelos consumidores.

/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/l/7/zF7z8DReORV97QzOeWMw/2026-07-22t100423z-1858085382-rc2tfmauplbn-rtrmadp-3-usa-trump-brazil-tariffs.jpg)