Quando se falava no risco de “apagão” de professores, a preocupação principal nos últimos anos era com a redução no número de alunos nos cursos de licenciatura. Mas dados divulgados pelo Instituto Semesp, nesta quarta-feira (16), mostram que o problema vai além: os docentes que trabalham nas escolas de educação básica estão envelhecendo e próximos à aposentadoria — enquanto o índice de professores jovens, em início de carreira, é cada vez menor.
➡️Entre 2015 e 2023, o número total de docentes no ensino médio, por exemplo, aumentou 6, 6%. Seria um alívio. No entanto, olhando apenas para o recorte de até 24 anos, houve queda de 31, 1% (de cerca de 17 mil professores para 12 mil). Já na faixa de 60 anos ou mais, o número mais do que dobrou: elevação de 104, 5% (18 mil para 37 mil).
“Os dados mostram que o risco de apagão não depende mais apenas da quantidade de professores existentes hoje. O principal desafio está na capacidade de formar, atrair e incorporar novos profissionais em ritmo suficiente para substituir aqueles que deverão deixar a carreira nos próximos anos”, afirma a presidente do Semesp, Lúcia Teixeira.
A baixa atratividade da profissão parece ser o ponto central: ✏️ Remuneração pouco competitiva: segundo dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), em 2025, um professor do ensino médio ganhava aproximadamente R$ 6, 5 mil mensais — 20% a menos do que a renda mensal dos trabalhadores com ensino superior completo (R$ 8, 1 mil).
Em algumas disciplinas, o desequilíbrio é ainda maior: professores de sociologia do ensino médio têm média salarial de R$ 4. 695. ✏️Condições adversas de trabalho: o indicador de esforço docente, medido pelo Inep, mostra que, em 2025, 41, 4% dos professores de ensino médio no Brasil tinham de 50 a 400 alunos, trabalhavam em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas de ensino diferentes (ensino fundamental e ensino médio, por exemplo).
O desgaste é maior quando se tem mais provas para corrigir, mais aulas para preparar e mais deslocamentos para cumprir. ✏️Falta de perspectiva: estudantes jovens percebem que o retorno a longo prazo da carreira de professor não é rentável como em outros países.
Na Coreia do Sul, por exemplo, a remuneração anual passa de US$ 37, 8 mil no início da carreira para US$ 65, 8 mil após 15 anos, chegando a US$ 104, 8 mil no auge. Na Austrália, vai de US$ 57, 5 mil para US$ 81, 8 mil, com teto de US$ 93 mil. Índice de reposição de professores: veja as disciplinas mais críticas É claro que poder contar com docentes mais experientes é um ponto favorável.
O que a pesquisa ressalta é que esses mesmos professores provavelmente irão se aposentar na próxima década e terão de ser substituídos. Para medir a capacidade de reposição dos professores em atuação, o Instituto Semesp criou a Taxa de Renovação Docente, que relaciona o número de professores com até 24 anos ao contingente com 60 anos ou mais.
➡️Quanto menor a taxa, maior o alerta de possível dificuldade para renovar o quadro de funcionários. ➡️Em índices superiores a 1, significa que há mais docentes jovens do que idosos na área. De 2015 a 2023 (dado mais recente disponível), segundo o estudo do Semesp, a queda na taxa foi maior em: Química - de 1, 77 para 0, 42; Educação Física - de 1, 59 para 0, 40; Física - de 1, 53 para 0, 4; Biologia - de 1, 45 para 0, 37.
As disciplinas de Humanidades têm as menores taxas de renovação absolutas no último levantamento: Geografia - 0, 216 (aproximadamente 1 professor jovem para cada 5 professores mais velhos)História - 0, 234 Língua Portuguesa - 0, 240 Sociologia - 0, 263 Filosofia - 0, 274 Artes - 0, 278“Esse movimento demonstra que o problema da renovação não está concentrado exclusivamente nas áreas que atualmente possuem menor número de professores.
Trata-se de um fenômeno mais amplo, associado ao envelhecimento do quadro e à dificuldade de entrada de novas gerações na carreira docente”, diz o relatório. A projeção feita pelo Instituto Semesp indica que, em 2040, a Taxa de Renovação Docente poderá cair para 0, 17, em média: ou seja, haveria apenas um professor com até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais.
Em números absolutos, seriam cerca de 10, 7 mil professores jovens diante de 61, 9 mil docentes com 60 anos ou mais.

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