O preço da negociação (por André Gustavo Stumpf)

O preço da negociação (por André Gustavo Stumpf)

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o final de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.

Há que se distinguir algumas proezas, neste teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro, Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isto à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco Regional de Brasília foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.

É com este pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez a maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.

Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o Supremo Tribunal Federal no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?

Ao lado desta confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente, Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da operação lava-jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.

O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.

A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffolli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.

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