O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu um novo inquérito civil para investigar pagamentos da prefeitura de São Paulo, que somam R$ 3, 5 milhões, para custear despesas de uma feira de tecnologia gospel realizada em 2025 pela Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade de Karina Gama.
A ONG e a própria empresária, que também é produtora do filme Dark Horse, espécie de cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), são alvos de operação da Polícia Federal nesta quinta-feira (10/9) .
Em maio, a coluna Demétrio Vecchioli revelou que o valor saiu da Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR), então comandada pelo pastor e deputado estadual Rui Alves (Republicanos) e foi executado pela SPTuris sob gestão de Gustavo Pires, que foi exonerado depois de denúncias também da coluna .
Até abril, o pagamento de despesas do evento gospel era mantido sob total sigilo pela prefeitura e só nesta quarta-feira (9/9) a prefeitura de São Paulo tornou público, após pedido do Ministério Público, documento que mostra que foi Karina Gama quem enviou um pedido à gestão Ricardo Nunes (MDB) solicitando o apoio a sua “feira” ( veja aqui ). Leia também Mirelle Pinheiro Entenda por que financiamento do filme Dark Horse entrou na mira da PF São Paulo Endereços da produtora de Dark Horse nos Jardins são alvos da PF em SP Mirelle Pinheiro PF apreende armas e carros de luxo em operação sobre Dark Horse Tácio Lorran Operação da PF sobre produtora de Dark Horse foi autorizada por Flávio Dino
Trata-se de um modelo de contratação em que secretarias (no caso, a SMTUR) repassam dinheiro para a SPTuris bancar serviços para eventos escolhidos sem transparência e sem necessidade de solicitação formal. Os organizadores são beneficiados à medida que deixam de precisar pagar uma extensa lista de despesas, aumentando a margem de lucro de eventos privados . A Connect Faith 2025 cobrou ingressos para shows e palestras e vendeu cotas para patrocinadores e expositores.
Esse tipo de pagamento não é divulgado em Diário Oficial, nem é discutido em processo que possa, depois, ser objeto de pedido de Lei de Acesso à Informação. Como revelou a coluna, alguém faz pedido por “apoio” a um órgão da prefeitura e a SPTuris, em documentação também sigilosa, determina que fornecedores prestem o serviço.
Só existem registros de que isso aconteceu porque planilhas escondidas em processos da SPTuris mostram os pagamentos, de forma desordenada.
Questionada pelo MP, a prefeitura respondeu nesta quarta-feira confirmando que o apoio ao evento não foi submetido à Comissão de Monitoramento e Avaliação da SMTUR, incumbida de monitorar e avaliar as parcerias celebradas pela Secretaria Municipal de Turismo com as Organizações da Sociedade Civil, caso da ONG de Karina Gama.
Ao justificar o aporte de R$ 3, 5 milhões no evento de Karina Gama, a SMTUR, controlada por bispos da Igreja Universal, disse que “O evento possui aderência às diretrizes de fomento ao turismo religioso, segmento reconhecido por sua relevância econômica, cultural e capacidade de mobilização de fluxos turísticos, em consonância com as diretrizes do Plano Nacional de Turismo, que reconhece o turismo religioso como importante vetor de desenvolvimento econômico, promoção de destinos e fortalecimento das atividades culturais e turísticas”.
“Além disso, a realização do evento gerou impacto positivo na movimentação turística da cidade de São Paulo, contribuindo para o incremento do fluxo de visitantes, da cadeia produtiva do turismo e da promoção institucional do Município, tendo como contrapartida institucional a exposição da marca da Prefeitura de São Paulo nos espaços do evento”, continuou a prefeitura, em parecer assinado por Marcelo Alves Ribeiro, coordenador de eventos da SMTUR.
A resposta ao MP não cita qualquer dado sobre o impacto na movimentação turística da cidade, nem sobre incremento no fluxo de visitantes.
“Ressalta-se, ainda, que a organização do evento conferiu ampla visibilidade à marca institucional da Prefeitura de São Paulo, mediante divulgação em materiais promocionais, comunicação visual e demais espaços de exposição
relacionados ao evento, conforme documentação comprobatória acostada aos autos”, continua. A “ampla visibilidade” é comprovada neste relatório .
A SMTUR não explica como decidiu o volume de contratações pagas pela municipalidade para o evento. A coluna mostrou que só a MM Quarter, pivô do escândalo na SPTuris, recebeu R$ 183, 5 mil para fornecer produtores, recepcionistas e carregadores por seis diárias, ainda que o evento tenha durado quatro, de 12 a 15 de junho, no Expo Center Norte.
O “apoio” da prefeitura de São Paulo a eventos deveria estar em um degrau abaixo do “patrocínio”, com menos burocracia para resolver solicitações simples, como cessão de palco, som e iluminação para festas de bairro e eventos da própria prefeitura. Esta coluna tem denunciado que, nos últimos anos, passou a movimentar muito mais dinheiro do que os patrocínios da gestão municipal, sem cumprir os mesmos requisitos de transparência e controle.
Só em abril, após o Tribunal de Contas do Município (TCM) e o Ministério Público (MP) abrirem investigações sobre os contratos da SPTuris, a SMTUR deu transparência aos “solicitantes” de alguns eventos. No caso da Connect Faith, é citada a “Academia Nacional de Cultura”.
A planilha, que não foi integralmente preenchida. Não há qualquer explicação sobre quem solicitou que a prefeitura pagasse mais de R$ 5 milhões em despesas dos eventos “10 º Aniversário do TDZ” e “TDZSP”, que vêm a ser edições do Tardezinha, do pagodeiro Thiaguinho.
Quando a coluna procurou a prefeitura a respeito da revelação do apoio de R$ 3, 5 milhões ao evento, a prefeitura enviou a seguinte nota: “A Secretaria Municipal de Turismo informa que as contratações mencionadas respeitaram todos os trâmites previstos na legislação. O apoio do Município ao The Connect Faith foi concedido com base no Decreto Municipal nº 61. 244/2022 e destinado à infraestrutura do evento, que teve público estimado em 60 mil pessoas entre os dias 12 e 15 de junho de 2025. Por fim, a administração repudia qualquer tentativa da imprensa de criar relações entre iniciativas do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A Prefeitura de São Paulo reitera que a obra não recebeu recursos municipais.”

