Momento de ócio pode ser essencial para a criatividade e a saúde mental

Momento de ócio pode ser essencial para a criatividade e a saúde mental

Ficar alguns minutos olhando pela janela, tomar um café sem mexer no celular ou simplesmente deixar os pensamentos vagarem pode parecer perda de tempo em uma rotina marcada pela produtividade. Mas quando não se está fazendo nada, o cérebro não fica parado. Ele apenas muda a forma de funcionar. Quando interrompemos a produtividade visível, a mente aciona redes neurais altamente complexas, que são essenciais para a criatividade, a saúde mental e o equilíbrio emocional.

Em momentos de menor demanda externa, ganha espaço a chamada rede de modo padrão, associada a processos como lembranças, imaginação, planejamento e reflexão. Estudos também indicam que períodos de repouso acordado podem contribuir para a consolidação de memórias, embora os efeitos variem conforme as condições.

“Pausa não é ausência de funcionamento. É uma mudança na forma de funcionamento”, explica a psicóloga Denise Milk, especialista em comportamento e desenvolvimento de lideranças. Segundo ela, durante o ócio, a mente pode integrar experiências, organizar informações, acessar memórias e estabelecer novas associações.

É por isso que uma solução pode surgir durante o banho ou uma caminhada, justamente quando a pessoa deixou de procurar ativamente por ela. “Nem toda solução nasce quando estamos olhando diretamente para o problema”, destaca Denise. Leia também Saúde Estudo questiona ideia de que cérebro decide antes de agir Saúde Estresse na adolescência pode afetar o cérebro adulto, diz estudo Saúde Trauma na infância pode alterar o cérebro e afetar a saúde, diz estudo Saúde Apps de dopamina podem prejudicar o cérebro e causar efeito vicioso Ócio não substitui o sono

Embora o cérebro continue ativo durante esses momentos, isso não significa que ficar parado tenha os mesmos efeitos de dormir.

A neuropsicóloga e mestre em psicologia Keilla Gonçalves explica que o ócio acordado e o sono correspondem a estados diferentes. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, acontecem processos fundamentais para a recuperação do organismo e a consolidação de memórias .

A privação de sono, por outro lado, está associada a prejuízos de atenção, memória e funções executivas.Por isso, uma pausa durante o dia pode aliviar temporariamente a fadiga, mas não substitui uma noite bem dormida. Quando a pausa vira mais estímulo

Um dos obstáculos para o descanso está justamente no hábito de preencher cada intervalo com o celular.

Esperar o elevador, ficar alguns minutos na fila, tomar um café ou aguardar uma reunião começar pode se tornar, imediatamente, o momento perfeito a ser preenchido por uma tela.

O problema não é o aparelho, mas a sucessão constante de estímulos.Notificações e interrupções podem prejudicar a atenção, enquanto o uso de telas à noite pode interferir no sono por meio da exposição à luz e do estímulo cognitivo.

“Às vezes, o que chamamos de descanso é apenas uma troca de demanda: saímos da tela do trabalho e entramos na tela dos celulares”, resume a psicóloga.

Por que sentimos culpa ao parar?

A dificuldade de ficar sem fazer nada também tem relação com a cultura da produtividade. Para Denise, muitas pessoas passaram a associar o próprio valor à quantidade de tarefas realizadas.

“Descansar deixou de ser uma necessidade humana e passou a ser quase uma recompensa: ‘eu descanso depois que terminar tudo’. Só que esse ‘tudo’ nunca termina”, afirma.

Nesse cenário, parar pode trazer à tona pensamentos e emoções que a atividade constante ajudava a manter em segundo plano. Entre os sinais de que a mente pode estar sobrecarregada estão irritabilidade, dificuldade de concentração, esquecimentos, sensação de cabeça cheia e necessidade constante de estímulo. Reaprender a ficar sem estímulo

Para quem vive em alta velocidade, a recomendação é não começar com longos períodos de silêncio. Denise sugere pequenas mudanças: tomar café sem celular, fazer um trajeto curto sem áudio, esperar sem abrir uma tela ou caminhar sem responder mensagens. “É quase uma reeducação da atenção”, afirma.

Keilla também destaca a importância de reduzir estímulos antes de dormir e manter uma rotina regular de sono. Em casos de insônia persistente, a terapia cognitivo-comportamental para insônia poder ser considerada uma das principais abordagens terapêuticas .

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