Uma espécie de tempestade perfeita está na raiz da vitória histórica conquistada pelo Partido Democrata, de oposição a Donald Trump, nas chamadas midterms, eleições realizadas na terça-feira (3) nos Estados Unidos. Desde o voto de protesto contra Trump até a alta nos votos antecipados, passando por uma nova leva de democratas carismáticos, a chamada "onda azul" — em referência à cor do Partido Democrata — foi proporcionada por uma combinação de fatores. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g 1 no WhatsAppMAPA mostra resultados das eleições nos EUA em tempo realAO VIVO: Acompanhe as últimas notícias das midterms ➡️ No pleito, feito para renovar parte do Legislativo e de governos estaduais, os democratas recuperaram o controle tanto da Câmara dos Deputados quanto do Senado, que eram controlados pelo Partido Republicano, de Trump, desde que ele voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025. É praxe, na política norte-americana, que o partido de oposição ao presidente ganhe o controle de pelo menos uma das Casas nas midterms. Desta vez, no entanto, os democratas avançaram sobre cadeiras historicamente ocupadas por republicanos. Também haviam conquistado, até a última atualização desta reportagem, 28 governos estaduais, incluindo os de redutos históricos republicanos, como o Texas e o Kansas. Veja, abaixo, fatores que levaram à vitória democrata: Voto anti-Trump Um levantamento feito pela agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), que ouviu mais de 100 mil eleitores em todos os 50 estados dos EUA, apontou que cerca de 40% dos eleitores votaram para "expressar oposição" a Donald Trump. Para o comentarista de política internacional da Globonews Marcelo Lins, os resultados foram, antes de tudo, um voto de protesto contra o presidente dos EUA. "Donald Trump prometeu entregar uma economia estável, não colocar os Estados Unidos em conflitos e trazer militares para casa", afirmou. "Ele não entregou nada disso. Entrega uma inflação pressionada. O desemprego não é uma preocupação neste momento, mas as guerras sem fim são outra preocupação. Exaurem os cofres dos Estados Unidos. E, claro, o preço do petróleo, que não deixa os americanos se planejarem nem para o curto, muito menos para o medio e longo prazos". O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Vitélio Brustolin disse achar que o voto de rejeição foi o fator-chave do êxito democrata. "As pessoas foram às urnas por conta da insatisfação", afirmou o professor ao g 1. Baixa popularidade de Trump As últimas pesquisas de aprovação do governo de Donald Trump já indicavam que os resultados a favor do Partido Democrata poderiam ser mais expressivos. A popularidade do presidente norte-americano vinha despencando nos últimos meses e, em outubro, a semanas das midterms, alcançou a baixa histórica de 31% de aprovação da população. A popularidade em baixa não permitiu que Trump mobilizasse seus eleitores, mesmo com o presidente pedindo que eles votassem como se ele próprio estivesse nas urnas. 'Guerra sem fim' A guerra no Irã também encabeça a lista de fatores que entregaram a vitória aos democratas. Traumatizados com conflitos como os do Vietnã, norte-americanos digeriram mal a demora de Trump em dar um fim à guerra que ainda trava contra o Irã. Mas pesou mais o fato de que o conflito vem mexendo no bolso dos norte-americanos. A alta no petróleo provocada pelo conflito iniciado pelo presidente dos EUA encareceu ainda mais o custo de vida no país, que já era alto. O próprio vice-presidente dos EUA, JD Vance, em sua primeira manifestação após os resultados, culpou o conflito. "A razão pela qual perdemos é a guerra. O próprio presidente disse isso na noite passada. Se você quiser argumentar que valeu a pena, que perder o Senado pelos próximos 6 anos valeu a pena, então faça isso. Argumente que foi um custo válido a pagar. Mas todo mundo sabe por que perdemos", disse Vance. Os 'novos democratas' Ao lado da insatisfação com Trump, sua "guerra sem fim" e a economia, uma nova leva de candidatos democratas, mais carismáticos e com mais apelo que nomes do partido em pleitos anteriores, mobilizou o eleitorado. Encabeçaram essa lista o candidato ao Senado pelo Texas, James Talarico, o candidato ao Senado pelo Michigan, Abdul El-Sayed, e o senador pela Georgia, Jon Ossof. Os três foram eleitos nas midterms. Com linguagem afiada e mais capacidade de mobilização pelas redes sociais, esses candidatos conseguiram ajudar os democratas a recuperar terreno e fazer com que eleitores voltassem a levantar a bandeira do partido, um movimento encabeçado pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. "Ele despertou algo nos eleitores", disse à rede de TV ABC News a cientista política Christina Greer, da Universidade Fordham. "Antes, os eleitores achavam que precisavam aceitar o 'status quo' da política tradicional". Embora não haja um grande nome forte atualmente no Partido Democrata, a sigla conseguiu mobilizar candidatos carismáticos em regiões relevantes e até em redutos republicanos, como o Texas e o Kansas. Voto antecipado A mobilização pelo voto antecipado, um comportamento tradicionalmente democrata, foi um fator decisivo neste pleito. Quase 59 milhões de americanos votaram antes do dia da votação, contra 45, 9 milhões nas midterms de 2022, segundo o levantamento da AP. Pesquisas revelaram que, de fato, houve uma forte mobilização de eleitores democratas para o voto antecipado. Um levantamento do site de notícias Axios mostrou ainda que o voto antecipado foi especialmente forte entre eleitores negros e latino-americanos, grupos que penderam para o Partido Democrata neste pleito. Latinos voltaram aos democratas Tradicionalmente democrata, o eleitorado latino-americano — que inflou e hoje representa mais de 15% de todos os eleitores do país — havia se aproximado do Partido Republicano nas últimas eleições, em 2020. Na ocasião, esse eleitorado expressava mais confiança em Donald Trump para retomar a economia do país e descolava-se do discurso anti-imigração de Trump, que eles enxergavam como direcionado a novos imigrantes, distantes de latino-americanos que vivem há anos ou décadas nos EUA. No entanto, além de a economia não melhorar, a dura política anti-imigração de Trump não caiu bem entre os latino-americanos, que acabaram afetados direta ou indiretamente pela caça de agentes ICE a estrangeiros. A resposta veio nas urnas. O levantamento feito pela AP revelou que, entre os eleitores latino-americanos, o apoio aos candidatos republicanos foi menor que o registrado por Trump dois anos atrás. De acordo com a pesquisa, seis em cada 10 eleitores hispânicos declararam ter votado no Partido Democrata — na eleição presidencial de 2024, esse grupo ficou praticamente dividido entre Donald Trump e a candidata democrata Kamala Harris, segundo o AP VoteCast. Jovens A pesquisa feita pela Associated Press também revelou uma guinada acentuada dos eleitores jovens em direção à esquerda. Sete em cada 10 eleitores com menos de 30 anos disseram ter votado em candidatos democratas para Câmara dos Deputados. O desempenho dos candidatos democratas entre os eleitores com menos de 30 anos foi maior que o apoio que esse grupo conferiu à vice-presidente Kamala Harris, que disputou a presidência com Donald Trump. A maioria dos eleitores com menos de 30 anos, ainda de acordo com a pesquisa, afirmou ter votado para expressar oposição ao atual presidente. O fator Obama Afastado de grandes comícios, o ex-presidente Barack Obama foi um reforço de peso para os democratas na reta final das eleições de meio de mandato. Quase uma década depois de deixar a Casa Branca, ele voltou aos palanques para mobilizar eleitores em estados estratégicos, como Ohio, Michigan e Geórgia. A capacidade de Obama atrair atenção e entusiasmar a base democrata foi destacada pela imprensa norte-americana como um dos principais mobilizadores do partido. O ex-presidente dividiu o palco com o candidato ao Senado por Ohio, Sherrod Brown, a candidata ao governo do estado, Amy Acton, com o senador Jon Ossoff e com a candidata democrata ao governo da Georgia, Keisha Lance Bottoms, que se tornou a primeira mulher negra a se eleger governadora de um estado americano. Mas o destaque foram os atos de Obama ao lado de Abdul El-Sayed (veja na imagem acima).
Latinos, guerra e votação antecipada: veja o que explica a 'onda azul' que derrotou Trump
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