Integrantes do governo Lula avaliam que Trump terá dificuldade em seguir com política externa

Integrantes do governo Lula avaliam que Trump terá dificuldade em seguir com política externa

Após a vitória expressiva dos democratas nas eleições legislativas nos Estados Unidos, integrantes do governo brasileiro veem dificuldades no futuro de Donald Trump. A expectativa é que o presidente americano tenha dificuldade em seguir com a política de imposição de tarifas e também com a implementação da chamada “Doutrina Donroe”, linha da política externa da Casa Branca que compreende o hemisfério ocidental, incluindo a América Latina, como zona de interesse norte-americano. 🔎O Partido Democrata, de oposição ao governo republicano de Donald Trump, conquistou na madrugada desta quarta-feira (4) a maioria das cadeiras no Senado e na Câmara dos Deputados americanos. A vitória democrata incluiu a tomada de cadeiras historicamente ocupadas pelos republicanos e altera o equilíbrio de poder para a segunda metade do mandato de Trump à frente do país. '7 a 1' O Brasil não irá se manifestar oficialmente sobre o resultado das eleições de meio de mandato. Não é praxe da diplomacia brasileira publicar notas sobre eleições em outros países. Além disso, Brasil e Estados Unidos vivem uma crise diplomática há mais de um ano, e a linha do governo brasileiro é adotar o pragmatismo para não agravar as tensões. Nos bastidores, no entanto, o resultado das eleições legislativas nos EUA foi recebido com entusiasmo por integrantes do governo Lula, que fazem um paralelo com a disputa presidencial brasileira. “Foi um 7 a 1. Os piores cenários para Trump se confirmaram. Tanto lá como cá são sociedades que prezam suas democracias, e demonstraram no voto. Retificaram o rumo do delírio autoritário”, afirmou um diplomata brasileiro. De forma reservada, a leitura de integrantes do governo que atuam no Itamaraty e na área internacional é que os democratas terão força para abrir no Congresso diversas frentes de investigação sobre ações de Trump nos dois primeiros anos de governo. O entendimento é de que isso tende a forçar a Casa Branca a seguir com uma linha mais cautelosa nas políticas externa e tarifária daqui em diante. Um integrante do governo que acompanha as negociações com o USTR (Escritório Comercial dos EUA) sobre as tarifas impostas ao Brasil afirmou que técnicos do escritório já vêm oferecendo resistência nos últimos meses a dar aval a tarifas “intempestivas e autoritárias” determinadas por Trump. Diante do risco maior de investigações, a burocracia estatal deverá resistir ainda mais a dar sustentação a essa agenda. Interlocutores do governo lembram que muitos senadores e deputados democratas foram eleitos defendendo que haja investigação sobre as operações na América Latina, como, por exemplo, as ações na Venezuela que incluíram a captura de Nicolás Maduro e ataques a Caracas. Ações unilaterais que possam ferir a soberania dos países latino-americanos também tenderiam a perder espaço na segunda metade da administração Trump. 'Big techs' e política interna Outro tema que pode ser impactado é a regulamentação das 'big techs', grandes empresas multinacionais de tecnologia. O perfil dos eleitos indica que haverá uma coalizão em defesa da regulação dessas plataformas. A medida tem apoio não só do Partido Democrata, mas também entre uma parcela dos parlamentares republicanos. A pauta interessa ao governo Lula, que, nos últimos anos, tentou avançar com a regulamentação das plataformas, mas encontrou resistência no Congresso. A leitura no Palácio do Planalto é que a falta de regulação do setor favorece a direita mais ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Auxiliares de Lula também preveem que Trump faça uma segunda metade do governo mais voltada para questões internas, e não para a política externa, uma vez que a Guerra do Irã é apontada como a grande causa da derrota republicana nas eleições legislativas americanas. Sendo assim, a tendência, segundo estes interlocutores, é que Trump faça uma disputa política com os democratas em torno de temas relacionados a minorias – intensificando o discurso contra grupos como imigrantes, muçulmanos e a população LGBTQIA+ – e reduzindo a atenção sobre adversários externos, como Irã e Cuba. O governo brasileiro vai observar, nos próximos dias, como a administração Trump vai absorver a derrota e reorientar sua atuação daqui para frente. A partir disso, a diplomacia brasileira também irá calibrar suas estratégias na relação bilateral. Além do tarifaço, há diversos pontos de atrito entre os países, como a suspeita de que o governo americano tenha ajudado Flávio Bolsonaro a fugir do país e a suspensão do visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.

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