Ao escrever Os Demônios (Rússia, 1873), Dostoiévski não queria falar sobre fenômenos espíritas, tampouco sobre exorcismo. Os demônios a que se referiu assombravam o bolso e a panela do povão russo quando o czarismo respirava por aparelhos. Em plena efervescência das democracias liberais e da contagiante Belle Époque, os russos também viviam sua ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo europeu. A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Estadunidense e a Revolução Francesa encontravam correspondência no mundo todo, especialmente no quintal dos truculentos Romanov.
Curiosamente, os demônios que frequentavam as mentes russas eram os mesmos que tiravam (e ainda tiram) o sossego de outras nações, apesar da derrocada monarquista mundo afora. A diferença estava no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios haviam perdido força, ou abrandado suas feições. Nos dias de hoje, por exemplo, Dostoiévski facilmente enxergaria os demônios, que ainda atormentam a democracia resiliente da Ilha da Vera Cruz. Possivelmente seria atual para nós o parágrafo: “Esses demônios […] são todas as chagas […] que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil?) para todo o sempre”. Certamente por isso mesmo, alguns anjos decaídos, inclusive brasileiros, ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria, um século e meio depois de sua morte.
Por sua vez, no auge da II Guerra Mundial, o inglês C. S. Lewis publicou o surpreendente “A Abolição do Homem” (Oxford University, 1944), no qual nos apresentava o que podemos chamar de a outra bandinha da laranja dos “Demônios”. Lewis se referia ao “Tao da política” – algo que podemos resumir como sendo o espírito democrático em sua mais elevada manifestação. Segundo o britânico, ali no fogo cruzado da incubadora da guerra fria, o Tao democrático já vivia sob bombardeio cerrado de todo tipo de golpistas, de direita e de esquerda. Lewis e Dostoiévski enxergavam, a partir de ângulos de visão e épocas diferentes, que as privações de bem-estar sofridas pelas camadas mais vulneráveis da sociedade eram intencionais, seja em favor da nobreza, dos magnatas capitalistas, dos gabinetes fascistas ou do recente establishment comunista.
O processo é cíclico, pendular. Muitas vezes sutil. A democracia vaivém, sobe-desce, cai-não-cai, até hoje. Por aqui, a coisa parecia melhorar, ainda que fosse aos trancos e barrancos, até o golpe parlamentar(ista) sofrido por Dilma Rousseff. Desde então, “lá vem o Brasil descendo a ladeira”, perdendo os freios… e contrapesos, surfando na onda internacional do extremismo neofascista. Dá pena ver a república enganchada em um Parlamento que governa e desgoverna por meio de orçamentos secretos bilionários. É de ficar triste testemunhar o desmonte premeditado e autofágico da Suprema Corte “em tenebrosas transações”. Renato Russo tinha razão. “Festa estranha, gente esquisita, eu não tô legal”. Felizmente, enquanto persistem por aqui capetas tropicais como o golpismo, o negacionismo, a corrupção, desigualdade social, crime, devastação ambiental e outros de legiões semelhantes, os alertas de Os Demônios ainda apavoram diabretes desde a Faria Lima até Sinop. Cabe às forças do naipe político progressista e da sociedade civil se reorganizarem de modo independente, para além do Estado e com o Estado, retomando as rédeas da transformação social que ainda temos razões para valorizar.
Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; sócio da Terra Consultoria e Inovação; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo.

