A Prefeitura de São Paulo investiga o vazamento de dados sigilosos do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da gestão Ricardo Nunes (MDB). A administração municipal atribui o episódio a um agente de segurança, que foi afastado do cargo, e nega que tenha ocorrido uma falha de segurança na plataforma. A notícia foi revelada pelo UOL nesta terça-feira (20). De acordo com a apuração, informações sigilosas do sistema ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses, permitindo o acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras conectadas à plataforma, incluindo equipamentos instalados em ruas, escolas, creches e hospitais da capital paulista. A Prefeitura de São Paulo confirmou o vazamento, mas negou que tenha ocorrido uma falha de segurança no Smart Sampa. Segundo a gestão municipal, os dados foram divulgados ilegalmente por um agente que tinha acesso autorizado ao sistema. "O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7. 500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana", afirmou a prefeitura. O professor da área de segurança pública da FGV, Rafael Alcadipani, disse que é preciso fazer uma revisão dos controles de acesso e de uma análise detalhada de quem tem ou pode ter acesso a essas informações. Segundo ele, quando os controles de acesso não estão adequados, as informações que deveriam ser utilizadas para proteger o cidadão podem ser usadas para cometer crimes contra ele. "Um sequestrador poderia obter informações sobre a vítima que deseja sequestrar; um criminoso poderia saber onde estão as viaturas policiais no momento em que pretende cometer o crime; e alguém interessado em cometer um atentado contra uma autoridade poderia descobrir onde essa autoridade está", afirmou Alcadipani. O professor disse que o ideal é que poucas pessoas tenham acesso a essas informações e que o controle sobre quem está acessando seja feito 24 horas por dia, o tempo todo. Prefeitura diz que reforçou segurança após denúncia A Prefeitura de São Paulo informou que o repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar. A gestão municipal também afirmou que reforçou os mecanismos de proteção do Smart Sampa, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores, além da exigência de códigos enviados por SMS para a criação de novas senhas. A Prefeitura sustenta que não houve uso indevido da plataforma e afirma que o programa conta com fiscalização do Tribunal de Contas do Município (TCM), consultoria especializada em governança e privacidade de dados e envio semestral de relatórios de transparência ao Ministério Público. A gestão também afirma que o contrato prevê auditorias periódicas, testes de segurança e correção de eventuais vulnerabilidades. Sistema custa cerca de R$ 10 milhões por mês O Smart Sampa foi lançado em 2024 como uma das principais apostas da gestão Ricardo Nunes para a segurança pública da capital paulista. A central de monitoramento, inaugurada em julho daquele ano, funciona 24 horas por dia e recebe imagens de câmeras públicas e privadas integradas ao programa. O investimento mensal é de cerca de R$ 10 milhões. A tecnologia utiliza inteligência artificial para comparar imagens de pessoas captadas pelas câmeras com bases oficiais de procurados pela Justiça e desaparecidos. Também permite identificar veículos roubados, furtados ou com suspeita de clonagem de placas. Em junho deste ano, a prefeitura lançou o aplicativo Smart Sampa Cidadão, que permite aos moradores colaborar com a identificação de veículos com restrições por meio da câmera do próprio celular. Na mesma ocasião, Ricardo Nunes anunciou a contratação de um helicóptero equipado com tecnologia de monitoramento, ao custo estimado de R$ 2 milhões por mês. Segundo o balanço mais recente divulgado pela prefeitura, o Smart Sampa já contribuiu para a captura de 3. 628 foragidos da Justiça e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Estudo questionou eficácia do Smart Sampa Apesar dos resultados divulgados pela prefeitura, a eficácia do Smart Sampa na redução da criminalidade já foi questionada por pesquisadores. Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), intitulado "Smart Sampa vigia, mas não protege", concluiu que a instalação do sistema não produziu redução estatisticamente significativa nas taxas de furtos, roubos e homicídios na capital paulista. A pesquisa analisou dados entre março de 2024 e abril de 2025, comparando os indicadores de São Paulo com os de outros municípios do estado que não haviam adotado o programa. O levantamento também não identificou aumento significativo na produtividade policial, medida pelo número de prisões em flagrante e pelo cumprimento de mandados judiciais. O estudo também revisita erros de identificação cometidos pelo sistema de reconhecimento facial nos primeiros meses de 2025. Entre os casos relatados: Um policial militar fardado confundido com foragido; Um jardineiro voluntário de uma UBS preso injustamente; Uma mulher grávida que teve parto prematuro após ser abordada pelo sistema. Segundo a pesquisa, os erros ocorreram por falhas nos algoritmos de reconhecimento facial, que tendem a errar mais com pessoas negras, e por bancos de dados desatualizados, com mandados que já deveriam ter sido retirados do sistema. O estudo também enfatiza que esses sistemas carregam potencial de viés racial. Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de 2018, mostrou que sistemas de reconhecimento facial erravam até 34% ao identificar mulheres negras, mas apenas 1% com homens brancos. A prefeitura contestou a metodologia e as conclusões do estudo. Segundo a gestão municipal, a pesquisa fez comparações inadequadas entre a capital e cidades com características sociais, econômicas e criminais diferentes. Em outra reportagem, o g 1 mostrou que a região de Pinheiros, na Zona Oeste da capital, continuava registrando uma sequência de roubos e furtos de celulares, apesar da presença de milhares de câmeras integradas aos sistemas de monitoramento. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) apontaram que 2. 156 celulares foram roubados ou furtados na área atendida pela delegacia de Pinheiros no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 24 aparelhos por dia. Programa inspirou proposta de Flávio Bolsonaro O Smart Sampa também se tornou referência para uma das principais propostas de segurança pública do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Durante a campanha eleitoral, o senador anunciou a intenção de criar o Smart Brasil, um sistema nacional de monitoramento por câmeras de segurança e reconhecimento facial, integrado a bancos de dados criminais. A proposta, anteriormente chamada de Muralha Brasileira, consta do plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral e prevê a instalação de mais de 1 milhão de câmeras em parceria com estados e municípios. A proposta pretende ampliar para todo o país um modelo de monitoramento semelhante ao utilizado pela Prefeitura de São Paulo.
Imagens de 58 mil câmeras da cidade de SP vazam; Prefeitura acusa funcionário
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