O Conselho Nacional do Ministério Público rejeitou por 9 a zero o afastamento de Paulo Gonet do caso Master e rejeitou, por 5 a 4, a abertura de um procedimento preliminar contra o procurador-geral da República para detecção de eventual conduta imprópria — que, obviamente, não aconteceu, como reconheceu até André Mendonça. Nem vou procurar os que se manifestaram em favor do que seria também uma aberração para que a minha crítica não pareça dirigida.
Gonet é um homem reto, de bem. Mas logo alguém saca o clichê sobre a mulher de César, a quem não bastava ser honesta; havia de também parecer. A frase, a rigor, nunca foi dita por ninguém. Explico tudo.
Como narra Plutarco em “A Vida de Homens Ilustres” — na edição que tenho, da Editora das Américas, Júlio César está no volume VII —, o então Sumo Pontífice se separou de Pompeia, sua segunda mulher, porque uma cerimônia religiosa em homenagem à “Bona Dea” (“Boa Deusa”), realizada em sua casa, exclusivamente para mulheres, foi invadida por Públio Clódio Pulcro, fantasiado com roupas femininas. E correu o boato de que o líder estaria sendo traído.
No julgamento de Clódio, acusado de sacrilégio, o marido disse não ter provas contra o invasor — já digo por que fez isso. E lhe perguntaram por que, então, havia deixado Pompeia.Veio a resposta que gerou o clichê: “Porque penso que minha mulher tem de estar livre até da suspeita” . Suetônio, em “Os Doze Césares”, narra algo parecido: “Os meus têm de estar livres tanto da suspeita como do crime”.
Na verdade, César queria o apoio da poderosa família de Clódio, o que obteve. Pompeia, neta do ex-ditador Lúcio Cornélio Sula e de origem aristocrática, já não lhe interessava mais. Com o crescimento do prestígio de Pompeu, ele precisava ficar livre para um novo casamento e novas alianças.Batatolina! Na sequência, veio Calpúrnia Pisônia, de linhagem ainda mais influente e rica, o que o fortaleceu. O tal “não basta ser honesta, tem de também parecer” tornou-se apenas a expressão moralista de um interesse objetivo. Nota: tudo indica que Pompeia era inocente. Mas César não era. Ainda não havia o grupo de pagode Molejão para cantar: “Não era amor, era cilada”.
QUEM APONTA O DEDO?
Quem apontou o dedo contra o procurador-geral? Alguém interessado na sua deposição porque seria “muito próximo a Gilmar”. O que havia de objetivo contra ele? Ter ido a um seminário e depois participado de uma degustação de uísque em abril de 2024? Uma foto consentida em companhia de Daniel Vorcaro, não um flagrante? Menos de um mês depois, o jornal “Valor Econômico” promoveu um seminário patrocinado pelo Master, em Nova York, de que o então-banqueiro foi a grande estrela. Exótico? Não! Nada havia contra o banco, um dos maiores anunciantes do país, e ninguém cometia crime, tampouco Gonet.
Os editoriais pautados por um misto de Marat e Carlos Lacerda — sem o talento do primeiro no proselitismo e o do segundo no estilo — ficam, no máximo, no truque de César para fazer novas alianças políticas. “Ah, mas Gonet é homem público!” Perfeitamente.Há que se estabelecer um critério. Basta ter estado com Vorcaro uma vez para ser expulso da vida? Serão banidas todas as autoridades que se encontram ou falam com empresários?
Sugiro uma linha de corte: quem praticou atos de ofício que concorreram para os crimes atribuídos a Vorcaro, ao Master ou a qualquer outro? Gonet, Moraes, Nunes Marques? Quem, nos enfrentamentos no Supremo, opera com a Constituição, o Regimento Interno, o Código de Processo Penal, o Código de Processo Civil? Gilmar Mendes, Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes, Luiz Fux? Temos de dar respostas.
“Ah, chegamos ao ponto em que as leis e os códigos perderam importância! Tudo o que interessa é cortar algumas cabeças…” Então elejam o fazendeiro Charles Lynch seu juiz de referência. Em homenagem à moral e aos bons costumes. Com todas as vênias, pertenço à turma que quer justiça na forma da lei e que busca, se ela for ineficaz, os meios institucionais de mudá-la. Não compactuo com linchadores.
Se César não fosse César, Pompeia não teria entrado para a história como adúltera. Se César não fosse César, Clódio, o criminoso, teria sido condenado em vez de fazer aliança com o suposto traído. Perceberam? A frase que se repete por aí traduz apenas uma tramoia que faz vítimas inocentes. É por isso que os linchadores estão sempre de um lado, e eu, do outro.

