Parece impensável: nós, humanos, corremos risco de extinção. A Terra continuará a girar, mas estão ameaçadas as nossas condições de sobrevivência. E não gozaremos da dignidade dos dinossauros, aniquilados por um agente externo. Tudo indica que vamos aniquilar a nós mesmos. A questão é saber como vamos nos matar: pelo desenvolvimento da IA, pelo agravamento da emergência climática ou pela ascensão global da extrema-direita. Ou, ainda, pela articulação dessas três vias.
Há poucos dias, o ex-funcionário da OpenAI e da Anthropic, Jacob Coxon, fez um alerta sobre os perigos decorrentes do atual ritmo acelerado de evolução da IA. Citando Coxon: “As pessoas que estão construindo a IA acreditam sinceramente que ela pode matar a todos até o fim da década.”
Quanto à crise ambiental, há quem duvide das previsões catastróficas, por um mecanismo de defesa psíquica. Preferem aderir ao negacionismo de líderes como Donald Trump, nos EUA, ou os Bolsonaro, no Brasil, cuja irresponsabilidade pode agravar um cenário de extremos climáticos que, 1. ª Hora Uma selecção diária de notícias resumidas, com nova edição todas as manhãs. Ler agora além de mortes diretas, provocará efeitos desastrosos em setores como moradia, saneamento e produção de alimentos.
A IA depende de recursos hídricos, terras raras e minerais críticos, cada vez mais disputados, o que tende a acirrar tensões internacionais. Não por acaso, donos de big techs já definiram o seu lado na luta, expressando apoio ao governo autoritário de Trump. E o ódio xenófobo norteamericano, que anima os abusos da sua polícia anti-imigração, encontra correlatos na Europa. Neste mês, no mesmo fim de semana em que a Alemanha assistiu à vitória da AfD, partido de inspiração nazista, nas eleições da Saxônia-Anhalt, protestos de extrema-direita eclodiram na Inglaterra e na Dinamarca.
Tomando o diferente como um inimigo, a retórica paranóica da extrema-direita formula a dinâmica social nos termos do “Nós contra Eles”. O ideal de eliminação do Outro – o estrangeiro, o esquerdista… – seduz o inconsciente coletivo de uma população que se vê como os náufragos de um Titanic, onde os botes salva-vidas não são suficientes para todos, então é preciso sacrificar alguns.
No século XX, o fortalecimento de vagas ultranacionalistas e governos de extrema-direita foi o combustível que inflamou o eixo Alemanha-Itália-Japão – com reflexos em outros países, como Portugal –, culminando na guerra mais sangrenta de sempre. Se o pêndulo da História retornar, poderemos sobreviver à III Guerra Mundial, num planeta com milhares de ogivas nucleares? Sem falar nas armas controladas por IA.
Mas antes que me acusem de mensageira do Apocalipse, trago boas novas. Há um antídoto contra o avanço dessa distopia. Ele impõe imensas dificuldades: é o trabalho árduo de articulação política, dentro e fora de cada país, em prol da democracia e da diplomacia entre os povos. O esforço de construir soluções conjuntas para os problemas que nos afetam a todos.
A má notícia é que pouca gente ainda parece acreditar na efetividade desse plano.
(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)

