Christa Gail Pike, condenada à morte por assassinato, passou por uma execução frustrada nesta quarta-feira (30), no Tennessee, nos Estados Unidos. Segundo os advogados dela, Pike recebeu duas doses de pentobarbital, um barbitúrico que, em doses altas, provoca coma e, em seguida, a parada da respiração e do coração.
No entanto, ela continuou respirando e foi levada a um hospital. Pike, de 50 anos, seria a primeira mulher executada no estado em mais de 200 anos. Ela foi condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19, cometido em Knoxville em 1995, quando tinha 18. A execução estava marcada para as 10 h, mas um tribunal de apelações a suspendeu uma hora antes do horário previsto.
Horas depois, a Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão, e o procedimento foi realizado à noite. Porém, terminou fracassada. O que é o pentobarbital e como ele age no corpo? O pentobarbital pertence aos barbitúricos, classe de medicamentos inventada no fim do século 19.
Ele funciona como um sedativo de ação curta e, por décadas, foi usado como anestésico, para induzir o sono e para controlar convulsões. Seu uso terminou proibido e ele foi trocado pelos benzodiazepínicos por causa do risco, inclusive de vício. Os barbitúricos são depressores do sistema nervoso central: reduzem a atividade de diferentes funções do cérebro, e o efeito cresce conforme a dose.
Em quantidades menores, acalmam e evitam convulsões. Com mais droga, induzem o sono e, depois, a anestesia. Em doses ainda mais altas, as usadas para casos de eutanásia e execuções, como no caso de Pike, o efeito suspende os comandos que mantêm o corpo vivo, como a respiração e a circulação -- o que leva a pessoa a morte.
A droga é conhecida por trazer uma morte rápida nesses casos. Era esse o roteiro que as testemunhas esperavam ver. John North, jornalista da emissora WBIR, afiliada da NBC News, contou que imaginava ver a respiração de Pike se alongar, com pausas cada vez maiores, até cessar.
Quando as persianas da sala foram fechadas pela segunda vez, às 20 h 05, ela ainda respirava e, em alguns momentos, roncava. "A respiração dela não estava bem. Estava meio forçada, ofegante", relatou North ao deixar a penitenciária. Pike foi levada ao hospital, mas desde a tentativa de execução não se falou mais sobre seu estado de saúde.
Pike foi levada ao hospital, mas desde a tentativa de execução não se falou mais sobre seu estado de saúde. O que a defesa aponta como causa da falha Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, classificou o episódio como único e sem paralelo.
Segundo ela, outras sete pessoas já sobreviveram a execuções malsucedidas no país, mas em todos esses casos as equipes não conseguiram acessar uma veia para aplicar os medicamentos. Ninguém havia continuado vivo depois de recebê-los. O Departamento de Correções do Tennessee ainda não explicou o que ocorreu.
A porta-voz Dorinda Carter disse às testemunhas que não tinha informações imediatas sobre o caso. Os advogados de Pike afirmam que os problemas foram anunciados antes do procedimento. Em comunicado, listaram acesso venoso difícil, veias rompidas, pentobarbital degradado e ausência de atendimento médico de emergência, "tudo isso sob um protocolo que continua envolto em sigilo".
Não é a primeira vez neste ano que o estado esbarra na aplicação da droga. Em maio, a execução de Tony Carruthers foi cancelada depois de mais de uma hora de tentativas frustradas de encontrar uma veia para aplicar o pentobarbital. Na noite de quarta, a defesa de Pike pediu à Suprema Corte que interrompesse a execução.
O argumento foi que ela sofria uma "agonia desnecessária" e que seu direito de não ser submetida a punições cruéis e incomuns estava sendo violado. Os advogados também recorreram ao Tribunal de Apelações do Sexto Circuito e a um tribunal distrital, pedindo que o Departamento de Correções adotasse medidas para salvar a vida dela.
O crime de 1995 e o "pânico satânico" Pike e o então namorado foram condenados pelo espancamento e esfaqueamento de Colleen Slemmer. Os três eram colegas em uma instituição de treinamento profissional em Knoxville. O caso ganhou repercussão nacional por causa de detalhes como um pentagrama gravado no corpo da vítima.
Esses elementos alimentaram o chamado "pânico satânico", onda de temor sobre cultos satânicos que marcou os EUA nas décadas de 1980 e 1990. Depois da falha, o governador Bill Lee ordenou uma investigação independente e suspendeu as execuções no estado até o fim do ano.
Havia apenas mais uma prevista para o período. A investigação terá de esclarecer onde o procedimento falhou: no acesso à veia, na qualidade da droga ou no protocolo, que segue sob sigilo. Com duas execuções frustradas em cinco meses, o Tennessee entra na pausa decretada por Lee sem saber se o problema está na técnica de aplicação ou na substância escolhida para garantir uma morte rápida.

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