Doze coletivos de magistradas de diferentes estados enviaram, nesta quarta-feira (16/9),buquês de flores e uma carta de apoio à ministra Cármen Lúcia , do Supremo Tribunal Federal ( STF ).
O gesto solidário ocorreu um dia após a sessão da Corte, que analisou a possibilidade de abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes , pelas mensagens trocadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O movimento foi divulgado pelo coletivo Candangas TJDFT, ligado ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Segundo a publicação, o envio de flores teve como objetivo reconhecer a trajetória, a sensibilidade e a atuação de Cármen Lúcia no Judiciário .
“Em momentos de consternação, a sororidade também se faz presente: ninguém precisa atravessar sozinho momentos difíceis”, afirmou o coletivo. Leia também Viralizou Cármen Lúcia cita conto de Clarice Lispector em sessão no STF. Conheça obra Brasil Cármen Lúcia pede desculpas e diz que STF causou “mal-estar cívico” ao país Brasil Zanin e Cármen não se manifestaram na 1 ª parte de julgamento do Caso Moraes Matheus Leitão Cármen Lúcia vence prêmio de intelectual do ano no ‘Dia D’ do STF Ministra lamentou crise no STF
Durante a sessão dessa terça-feira (15/9), a ministra afirmou estar “envergonhada”, “triste” e “consternada” com a crise enfrentada pelo Supremo. Ela também pediu desculpas à população. “Talvez tenham esperado de mim uma postura diferente, de tentar resolver, e as coisas não foram resolvidas e cresceram demais”, declarou.
Confira o momento:
Além das flores, as magistradas enviaram uma carta dirigida à ministra. No documento, os coletivos afirmam que deixaram de lado processos, votos e divergências jurídicas para falar com Cármen como mulher, diante do momento de tensão vivido no STF.
“Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras”, diz um trecho.
As juízas também mencionaram o momento em que Cármen questionou se poderia ter feito mais para evitar o agravemento da crise:
“Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa. Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente.”
Na sequência, o grupo afirmou que esse sentimento pode levar mulheres a se perguntarem se faltou “alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais”.
A carta é assinada por 12 coletivos: Antígona TJPR, Candangas TJDFT, Catarina TJSC, EsperançaR TJRO, Sankofa TJSP TRF 3, Nísia Floresta, Paraibanas TJPB, Teia TRT 15, Movimento Nacional pela Paridade no Judiciário, Comitê de Incentivo à Participação Feminina do TJGO, Grupo Maria Firmina TJMA e Cotovia TJRN. Leia a carta na íntegra:
“Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.
Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.
Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si:
‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’
Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.
A mulher que existe antes da toga e para além dela.
A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.
A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza.
A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.
E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.
A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil.
E foi então que sentimos vontade de lhe responder.
Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.
Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.
Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.
Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.
Ontem, a senhora nos levou a Clarice.
E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver.
Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G. H’:
‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’
Talvez estas flores sejam exatamente isso.
Uma mão.
Na verdade, muitas.
Mãos de mulheres que também vestem toga.
Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.
Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.
Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.
Hoje, porém, não queremos lhe pedir força.
A senhora já precisou ser forte muitas vezes.
Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.
Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.
Pode simplesmente ser Cármen.
A filha de Anésia e Florival.
A menina de Minas.
A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.
Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem.
Não uma confissão de culpa.
Humanidade.
E foi a essa humanidade que quisemos responder.
Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava.
A senhora, ministra, não precisa imaginar.
Estamos aqui.
Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão.
E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.
Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença.
E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.
Com carinho, respeito e gratidão,”

