Geografia é destino. O Brasil está condenado a viver ao lado da Argentina. Vale, portanto, a comparação de um país com outro para medir o desenvolvimento nacional. Em 1960, o produto interno do Brasil era relativamente próximo ao da Argentina, embora a economia verde e amarela já tivesse maior tamanho do que a do vizinho. Em valores nominais, com o dólar daquela época, o PIB brasileiro somava US$ 17 bilhões. O da Argentina chegava a US$ 15, 8 bilhões. Estas cifras divididas pelo número de habitantes informam a renda per capita de cada um. Em 1960, o índice brasileiro era US$ 235, o da Argentina US$ 778.
Hoje os números são bem diferentes. O produto interno brasileiro é da ordem de US$ 2. 280 trilhões o que o coloca entre os dez maiores do mundo. É uma posição intermediária, mas no mesmo nível da economia da Rússia, da Itália e do Canadá. Não é pouco. O da Argentina é de US$ 683 bilhões. A renda per capita dos brasileiros está na casa de US$ 10. 713, enquanto o da Argentina é US$ 14. 898. A diferença se reduziu muito. Hoje a economia do vizinho é semelhante ao tamanho de São Paulo, ou de um terço dos bens e riquezas produzidos no Brasil. Este é um retrato fiel do veloz desenvolvimento brasileiro nas últimas décadas, a partir do governo do presidente Juscelino Kubitschek.
Falar de números é pouco atraente. É difícil encontrar beleza nas tabelas de cifras e estatísticas. Mas o crescimento nacional é pouco percebido pelos próprios brasileiros. Quando a Argentina já possuía cerca de 10 mil quilômetros de estradas asfaltadas, nos finais dos anos cinquenta, o Brasil inaugurou a primeira estrada pavimentada em 1949, no governo Dutra, a rodovia Rio-São Paulo. De lá para cá o país cresceu muito e aos trancos. A malha rodoviária é recente. No início dos anos sessenta, para viajar por terra até o Rio Grande do Sul era necessário conhecer a tábua de marés. Na falta de estradas, o intrépido motorista precisava viajar pelas praias, mas só poderia fazer isto na maré baixa. Hoje existem estradas para todos os gostos no centro-sul do país.
Viajei aos Estados Unidos, ainda adolescente, em navio cargueiro no longínquo ano de 1961. Conheci a modernidade da época: aparelhos elétricos de todos os tipos, automóveis reluzentes, televisão, transitei por estradas asfaltadas e sinalizadas. Também tive contato com a política de segregação racial, oficial e legal, modelo que, felizmente, não foi copiado aqui. Mas tudo aquilo que era moderno na época – o Brasil importava até roupas – hoje é produzido pela indústria nacional. De país importador, o Brasil se transformou em exportador. Vende de tudo no exterior, até jogadores de futebol, categoria na qual é relevante protagonista, além de fazer bons negócios com soja, carne, frango e, para surpresa geral, aviões.
O destino me colocou diante de desafios interessantes. Fui encarregado, em jornal que trabalhava, de colocar a empresa na internet. Isto nos anos noventa. Boa parte dos diretores era contra esta modernidade, tratada como moda passageira. Hoje é impossível ignorar internet, e-mail, inteligência artificial e outras consequências desta novidade. A comunicação por intermédio de rede de computadores uniu o mundo inteiro. Quem não acreditou, morreu. São conhecidos exemplos de grandes empresas, como o da Kodak, que duvidaram da modernidade e foram engolidas pelas novidades.
Em tempos recentes, minha filha me mandou uma mensagem no celular. Nada de novo. Só que ela estava a bordo de avião em algum ponto sobre o Oceano Atlântico na rota entre Brasil e África. Assim como falei, no celular, com outro que está na Alemanha. E um terceiro que estava assistindo um jogo na arquibancada do Maracanã, no Rio de Janeiro. Tudo isto é corriqueiro e normal, hoje em dia. Se fosse possível recuar no tempo, e eu contasse esta história nos anos sessenta, no Brasil, seria internado como louco em estado terminal. Mas os tempos modernos são realmente desafiadores.
Estas reflexões me ocorrem diante do desafio das eleições brasileiras. O Brasil não é o melhor país do mundo. É cheio de defeitos e desigualdades. Mas tem seus méritos. Entre eles o rápido crescimento nos últimos sessenta anos, quando descobriu a existência do centro-oeste e chegou mais perto do Noroeste. Abriu nova fronteira. A economia se industrializou, o agronegócio prosperou e a Petrobras encontrou petróleo. Mas, os jovens brasileiros não têm noção do país que existia há sessenta anos. Eleição do presidente da República é assunto sério. O exercício do mais alto cargo exige determinação e projeto. O Brasil mudou muito nas últimas décadas, mas é necessário mudar ainda mais para se tornar contemporâneo de seu tempo. Essencial enxergar além da linha do horizonte para colocar a sociedade em condições de enfrentar os formidáveis desafios do século 21.

