– Filho, o que você quer ser quando crescer?
Amaro até suava ao fazer a pergunta ao menino. Não era de conversar, abraçava pouco, preferia disciplina e jogar bola – na verdade treinar fundamentos com o rebento. Porém, após ver um vídeo sobre paternidade em uma rede social, decidiu ficar mais próximo da criança, que faria 10 anos em breve. Seriam amigos? Quem sabe. O vídeo: um homem relembrava a educação violenta e sem afeto do pai; anos de ressentimento e distância se passaram; o perdão bateu no coração do filho quando ele reconheceu as limitações de seu velho, algo como “quem não recebeu amor, não sabe oferecer amor”. Era decisão desse homem repetir ou não os erros de seu pai. O vídeo terminou com avô, pai e neto abraçados. Amaro achou um exagero o avô abraçar alguém. Primeiro pela própria história contada, depois, porque ele tinha a cara de um vizinho, um ex-policial com fama de matador.
Amaro tinha dificuldades em conversar, não só com o filho, mas com qualquer um. O mundo ideal era aquele sem dúvidas ou entrelinhas. Um pergunta, outro responde e pronto. Um mundo sem talvez. Esse mundo não existia, por isso Amaro era calado e seco, logo, mal educado pra muita gente. Com o filho, lhe importunava o inesperado. O moleque tinha resposta pra tudo, tudo tinha pergunta, tudo tinha se e talvez. Amaro ficava nervoso e gritava. Quando consertava o chuveiro, o moleque perguntou como funcionava a resistência. Lá Amaro sabia? Foi defenestrado Por que Amaro e a mulher trancam o quarto de vez em quando? Lá isso é assunto de criança? Corre daqui moleque. Dessa vez, entretanto, estava preparado, a semana toda treinando falar com o menino. Até que veio a pergunta durante o jantar:
– Filho, o que você quer ser quando crescer?
– Eu quero me aposentar, pai
Pronto, desandava a paciência, que se dane a paternidade, meu pai é que tinha razão, Amaro pensou.
– Mas pode isso?
– Poder acho que não pode, todo mundo só se aposenta velho, né?
– Só depois dos 60 anos
– Ah não, eu quero antes
Aos quase dez anos, o filho se juntava a 59% dos entrevistados de uma pesquisa¹ que disseram que gostariam de se aposentar aos 60 anos ou antes. Gostar é uma coisa, poder é outra. Assim, 32% vestiam a realidade e não esperavam parar de trabalhar com essa idade. Amaro lembrou de Josias, que labutava com ele e sempre xingava o Temer, dizendo que a reforma da Previdência jogou a idade mínima pra 65 anos. “Era pra estar em casa não fosse o vampiro”, sempre dizia.
Nessa mesma pesquisa, 11% acreditam que nunca conseguirão parar. Amaro era desses. Ficou anos sem pagar INSS, sem carteira, mas sempre trabalhou, vivendo de bicos contínuos em obras. Assinou a carteira pela primeira vez recentemente.
– Mas por que essa ideia filho
– Você só trabalha e eu nunca te vejo, se eu me aposentar cedo, vou ter mais tempo com você e com meu filho.
Amaro calou. E pela primeira vez baixou o olhar na frente do filho . Era verdade. Via o menino com mais tempo no domingo. O resto era a correria da vida. Ele saia de casa, o filho dormia no quarto, ele voltava o filho adormecia na sala.
Amaro fazia parte dos 60% dos moradores das dez maiores capitais brasileiras que precisam fazer um bico pra sobreviver, segundo pesquisa ². Integrava os 45% que declararam que o rendimento se manteve igual ao do ano anterior. Era por causa do bico de sábado, cozinhava no restaurante do Seu Chico, levantava mais de 1, 5 mil reais por mês. As contas fechavam e ainda sobrava um pouco. Era a favor do fim da escala 6×1, mas para ele a mudança nada valia. Não contava a ninguém, mas esse trabalho aquecia o velho sonho de participar do MasterChef. Feijoada, Baião de Dois e porções diferentes eram com ele.
– Pai?
Amaro voltou o olhar para o filho.. Lembrou das ausências de seu pai e que jamais teve a oportunidade de dizer o que sentia.
– Desculpa, você ficou triste?
– Nada não filho, vem cá me dá um abraço
1. Pesquisa encomendada pela Federação Nacional da Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) ao Instituto Datafolha
2. Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social, realizada pelo ICS (Instituto Cidades Sustentáveis) em parceria com a Ipsos-Ipec.

